Governo
pode ‘rifar’ meio ambiente
para aprovar pré-sal, diz líder do PV
O líder
do PV, deputado Edson Duarte (BA), disse que a bancada ruralista
poderá condicionar o apoio aos projetos do pré-sal
à aprovação de uma legislação
ambiental mais flexível. A situação poderá
ser agravada pela falta de unidade do governo para a questão
ambiental. “Seria muito grave o governo ‘rifar’
a floresta brasileira, o que resta dos nossos biomas, em troca
de projetos pontuais”, disse Duarte, recentemente reconduzido
à liderança do partido.
Na opinião
do líder, os deputados ligados ao agronegócio
estariam pressionando o governo para votar logo um novo código
florestal para o País. O código vem sendo discutido
por uma comissão especial relatada pelo deputado Aldo
Rebelo (PCdoB-SP). O Projeto de Lei 5367/09, do deputado Valdir
Colatto (PMDB-SC), que tramita apensado ao PL 1876/99, institui
o Código Ambiental Brasileiro e revoga o atual Código
Florestal (Lei 4.771/65).
Para Edson
Duarte, é hora de pressionar os líderes para evitar
que uma proposta contrária ao movimento ambiental seja
aprovada. De acordo com ele, os parlamentares precisam entender
que os eleitores estão atentos ao assunto e uma votação
equivocada poderá ter efeitos negativos para os deputados
nas eleições de outubro.
Em entrevista
à Agência Câmara, que está ouvindo
os líderes partidários, Edson Duarte disse que
o Plenário tem condições de votar neste
ano as propostas de Emenda à Constituição
(PECs) 115/95 e 524/02. A primeira inclui a Caatinga e o Cerrado
entre os biomas nacionais; a segunda cria o fundo de revitalização
da bacia do Rio São Francisco.
A seguir,
os principais trechos da entrevista do líder.
Agência
Câmara - O senhor acredita que será possível
votar ainda neste semestre o relatório do deputado Aldo
Rebelo sobre o novo código florestal?
Edson Duarte
- Quando os interesses setoriais são maiores que o interesse
nacional, tudo é possível. Principalmente com
a fragilidade do governo nesse tema. O interesse da bancada
ruralista seria apressar o relatório e usá-lo
como objeto de negociação para aprovar os projetos
do pré-sal. Seria muito grave o governo rifar a floresta
brasileira, o que resta dos nossos biomas, em troca de projetos
pontuais. Meio ambiente não pode ser objeto de troca
em uma negociação. O Brasil tem muita área
desmatada que não é utilizada para agricultura
ou outras atividades econômicas. Primeiro é preciso
usar essas áreas e só depois pensar em trocar
floresta em pé por soja, por cana.
Agência
Câmara - Diante desse cenário, o que o partido
pretende fazer para evitar uma votação contrária
aos seus objetivos?
Edson Duarte
- Nós já começamos. Aqui somos poucos,
apenas 15 deputados. Então estamos nos associando a uma
legião de pessoas conscientes, militantes ou não
de entidades ambientalistas, que podem exercer pressão
sobre o Congresso e, especialmente, sobre os líderes.
O relatório do Aldo não será dele, será
do PCdoB. O partido terá que arcar com as consequências
do que ali será posto. E os líderes têm
de entender que o eleitor está muito consciente e sensibilizado
para o tema ambiental. Se querem, atendendo a outros interesses,
aprovar uma legislação que venha a facilitar a
destruição do que resta do nosso bioma, saibam
que terão que assumir as consequências, inclusive
eleitorais, porque isso será divulgado, os nomes serão
dados.
Agência
Câmara - O PV faz parte da base aliada na Câmara,
mas em matéria ambiental vota contra o governo?
Edson Duarte
- Isso mesmo. Não há uma posição
de confronto, mas o governo sabe que temos uma postura diferente
nas matérias ambientais. Eu diria que na maioria delas
votamos de modo diferente, porque o governo ainda não
tem uma postura moderna sobre a questão. Apesar de concordarmos
quase sempre com o Ministério do Meio Ambiente, muitas
de suas posições não são seguidas
pelo restante do governo, e isso nos coloca em lados diferentes.
Mas o governo tem respeitado as nossas decisões, e sabe
que não vamos deixar de defender o meio ambiente, as
nossas bandeiras.
Agência
Câmara - Em um ano de eleições gerais, é
possível construir uma agenda de consenso entre os partidos?
Edson Duarte
- Sim, é possível. Acredito que na grande maioria
das matérias não há motivo para divergência
partidária, mas existem divergências contaminadas
pela disputa eleitoral. A questão está em os líderes
saberem diferenciar o que é motivo de acirramento e aquilo
que é consenso para uma agenda comum. O problema é
que quando a oposição obstrui as votações,
não faz diferenciação, trava toda a pauta.
Agência
Câmara - Que projetos poderiam então entrar na
agenda?
Edson Duarte
- Temos muitas matérias prontas para a pauta que poderiam
ser selecionadas, como por exemplo a PEC do Rio São Francisco,
e a PEC que inclui a Caatinga e o Cerrado também como
biomas nacionais. Temos uma lista de matérias que estão
prontas, bastando apenas o entendimento entre os líderes.
Também podemos concordar em matérias de interesse
social.
Agência
Câmara - O partido tem uma posição fechada
quanto aos vetos do presidente Lula, que liberou para receber
novos recursos do Orçamento as obras da Petrobras questionadas
pelo TCU?
Edson Duarte
- O PV acha que não dá para se condenar antes
de qualquer julgamento. Quando se paralisa uma obra, você
já a condena, antes de qualquer julgamento. Elas devem
continuar, mas que o processo de averiguação seja
mais célere, e os responsáveis, se houver, sejam
punidos.
Fonte:
Agência Câmara – Frente Ambientalista