
Ativista do Greenpeace durante protesto em Caetité
Poço contaminado com radiação
permanece aberto em Caetité
Mesmo após notificação da Secretaria de
Saúde da Bahia e do Inga (Instituto de Gestão
das Águas e Clima), água segue sendo consumida
pela população.
Por Greenpeace
Ativistas do Greenpeace
protestaram em frente ao prédio
da Secretaria de Recursos Hídricos de Caetité,
município do sudoeste da Bahia que abriga uma mina de
urânio operada pela estatal Indústrias Nucleares
do Brasil (INB), pelo descaso das autoridades locais em relação à saúde
da população rural do município.
Na última quinta-feira, dia 21, a prefeitura de Caetité e
a estatal INB (Indústrias Nucleares do Brasil) foram
notificadas para suspender imediatamente o uso de água
de três pontos (entre eles um poço em Barreiros,
zona rural da cidade), onde detectou-se a presença de
radioatividade além do permitido pelo Ministério
da Saúde.
A INB não deu qualquer satisfação sobre
que atitudes tomou acerca dos dois pontos de água radiotiva
que foram encontrados no terreno de sua mina. Quanto à prefeitura,
ela simplesmente não moveu sequer um dedo para impedir
o acesso ao poço de Barreiros e fornecer fontes alternativas
de água à população local. Essa
foi a razão do protesto do Greenpeace, realizado em
frente à Secretaria de Recursos Hídricos do município.
A estrela da manifestação foi o Caveira Guy,
anti-herói nuclear brasileiro. Enquanto ele oferecia às
autoridades locais, em uma barraquinha improvisada, água
coletada no poço de Barreiros e acondicionada dentro
de garrafas com o rótulo "Água INB, Gostosa
de Morrer", ativistas do Greenpeace, dentro do prédio,
convidavam o Secretário de Recursos Hídricos
a matar a sede com o líquido contaminado.
Afinal de contas,
se não fechou o poço, pode-se
supor que ele acredita que análise da água feita
pelo Instituto de Gestão de Águas e do Clima
do estado está errada. Portanto, não havia razão
para que não consumisse a mesma água que a população
de Barreiros bebeu e ainda está bebendo.
O secretário Nilo Joaquim de Azevedo, no entanto, demonstrou
maior cuidado com sua saúde do que com o bem estar dos
eleitores e recusou-se a beber a água contaminada. Nenhuma
outra autoridade local apareceu para tomar o líquido.
O poço da comunidade de Barreiros foi aberto em 2007
e fornece água para toda aquela região. Dados
oficiais apontam que 15 famílias fazem uso da fonte.
Mas uma equipe do Greenpeace foi até o local e constatou
que, além de continuar aberto, o poço é utilizado
pelo dobro de famílias. Na água, o Inga detectou
um índice de radioatividade de 0,3 bq/litro*. O máximo
permitido de acordo com a portaria 518 do Ministério
da Saúde é de 0,1 bq/litro.
Os outros dois pontos
onde o Inga detectou contaminação
por urânio ficam na área interna da mina operada
pela INB. Num poço, o índice de radioatividade,
de 4,07 bq/ litro*, está 40 vezes acima do que é permitido.
No outro ponto de contaminação dentro do terreno
da INB, um tanque de acumulação de água,
a radiotividade detectada foi de 0,23 bq/litro.
A suspensão imediata do uso da água nestes três
pontos foi determinada pelo diretor geral do Inga, Julio Rocha,
logo após o recebimento dos resultados da última
análise realizada pelo órgão na região.
A presença de contaminação por urânio
acima dos níveis considerados seguros para humanos em
poços na área rural do município foi detectada
pela primeira vez em 2005.
Em fins de 2008,
o Greenpeace conduziu uma análise
independente em sete pontos na região e constatou índices
de contaminação elevados em dois deles. O Greenpeace
levou os resultados para o Ministério Público
Federal, que moveu uma ação civil pública
contra a INB, e para o Ingá, que decidiu analisar as
fontes de água na região.
A INB opera a mina
de urânio de Caetité desde
meados da década de 90 e apesar de garantir que faz
análises periódicas da água em poços
do município, não se tem notícia de que
elas detectaram qualquer grau de radiotividade nocivo à saúde
humana nos pontos analisados - que por sinal ninguém
fora da empresa sabe quais são.
Depois que exames
independentes registraram a presença
da contaminação, a estatal mudou o discurso.
Parou de bater na tecla de que o consumo da água local
era seguro e passou a dizer que a extração de
minério não tem nada a ver com isso e que a radioatividade
encontrada na água que serve a centenas de famílias
em Caetité é fruto do alto teor de urânio
presente no solo da região. Em outras palavras, a INB
deu uma de Pôncio Pilatos e lavou as mãos.
O ônus de provar que sua mineração de
urânio não tem nada a ver com o problema permanece
no colo da INB. A empresa é uma estatal financiada às
custas do contribuinte. É portanto inconcebível
que ela continue a tratar com tamanho desleixo a saúde
não apenas de quem lhe paga as contas, mas que em última
análise são também seus acionistas.
Mesmo que ela consiga
um dia provar sua inocência na
contaminação, isso não a exime, como a
principal especialista em questões de urânio em
Caetité, a orientar as autoridades e população
locais sobre a necessidade de evitar o consumo da água
contaminada. Mas a INB nunca se pronunciou sobre o assunto
- a não ser para dizer que o problema não é seu.
E nenhuma família jamais foi orientada de forma oficial
sobre o caso. As informações que a comunidade
ameaçada de contaminação possui foram
obtidas através da imprensa.
Fonte: Greenpeace