Lixo
marinho elevou número de mortalidade de tartarugas em
2009
A negligência
com o lixo tem sido uma das principais causas da elevação
do número de mortes de tartarugas marinhas no litoral
brasileiro. Somente entre janeiro e agosto de 2009, mais de
44% das tartarugas necropsiadas pela equipe do Projeto Tamar
no litoral dos Estados do Ceará, Sergipe, Bahia, Espírito
Santo, São Paulo e Santa Catarina morreram por causa
da ingestão de lixo. O levantamento mostra que das 192
tartarugas mortas, 80 tinham objetos em seu trato digestivo
(estômago), principalmente plástico.
O levantamento feito
pela equipe do Projeto Tamar dá conta de que em 2008,
das 266 tartarugas necropsiadas, 65 foram encontradas com lixo
no aparelho digestivo. Em 2007, 60 das 156 analisadas tinham
objetos no estômago. Em 2006 os resultados de necropsias
de tartarugas que estavam em reabilitação e acabaram
morrendo, ou que foram encontradas mortas em três regionais
do Tamar, demonstraram a gravidade do problema.
Em Ubatuba-SP, dos
70 animais necropsiados, em 2006, 20 tinham plástico
em seus conteúdos gastro-intestinal; no Espírito
Santo, de 25 tartarugas, seis tinham plástico. Na Bahia,
das 11 tartarugas necropsiadas, sete apresentavam o mesmo problema.
Quanto à espécie, 24 eram verde (Chelonia mydas),
oito de pente (Eretmochelys imbricata) e uma era cabeçuda
(Caretta caretta).
Recentemente, uma
televisão do Rio Grande do Sul noticiou que algumas tartarugas
verdes tinham morrido depois da ingestão de lixo despejado
no mar. Os dados mostram que esse tipo de episódio é
recorrente em todo o litoral brasileiro, visto que as tartarugas
não distinguem, sacos plásticos de seus alimentos
preferenciais. As espécies verde e de couro, por exemplo,
não distinguem algas ou águas vivas, seus alimentos
prediletos, do lixo.
Plástico
forma maior parte do lixo marinho
Quando as tartarugas
ingerem o lixo, o trato gastro-intestinal não tem capacidade
de digerir e o que não é alimento fica paralisado,
as tartarugas têm a sensação de saciedade
e param de se alimentar, explica um dos pesquisadores do Tamar,
Gustave Lopez.
Apesar de um estudo
realizado pelo Programa Ambiental da ONU (Unep, sigla em inglês)
– lançado em 8 de junho deste ano, Dia Mundial
dos Oceanos – mostrar que produtos plásticos são
responsáveis pela maior parte do lixo marinho, Lopez
informa que todo e qualquer lixo é prejudicial às
tartarugas. “Elas podem ficar presas em restos de rede,
em linhas ou em outros objetos que dificultam a natação
e outras funções vitais, como a tomada de ar na
superfície, levando a animal a óbito”, informa.
O lixo é uma
das principais ameaças ao ecossistema marinho. Há
anos as equipes do Projeto Tamar lutam para conscientizar turistas
e pescadores de que garrafas, sacos, embalagens de comida, copos
e talheres são os objetos que formam a maior parte do
lixo encontrado no oceano.
Lopez diz que “pesquisas
científicas mundiais comprovam que o lixo pode causar
uma série de distúrbios no trato gastro-intestinal
das tartarugas, o que resulta no acúmulo de gases, no
aumento do bolo alimentar ou ainda na baixa imunidade da tartaruga,
o que facilita a ação de predadores ou a morte
por desnutrição”, afirma.
O estudo da ONU indica
que o verão é o período do ano em que se
acumula a maior parte do lixo marinho produzido pelos turistas.
Atualmente, o lixo produzido pelos turistas somado ao produzido
pela indústria pesqueira e outras atividades econômicas
que usam o oceano como ambiente de trabalho representa 675 toneladas
de resíduos sólidos despejados, por hora, no mar.
Desse total, 70% são de objetos de plásticos.
De acordo com a responsável
pela Coordenação Nacional de Veterinária
do Tamar no Espírito Santo, Cecília Baptisttote,
no mundo inteiro, a cada um minuto, são descartados um
milhão de sacos plásticos. Esse valor corresponde
a 1,5 bilhão de sacos plásticos descartados por
dia e mais de 500 bilhões por ano.
O Projeto Tamar vem
trabalhando na sensibilização dos turistas e das
pessoas com relação ao ambiente marinho. Com banners
informativos instalados nos centros de visitantes do Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
com dados sobre os problemas causados pelo lixo marinho, o Tamar
trabalha na conscientização de turistas.
Segundo Lopez, “o
grupo de crianças da comunidade que participa do programa
de inclusão social do Projeto Tamar atua em atividades
semanais com a temática do lixo. Além disso, os
centros de visitantes contam com lixeiras para separação
do lixo reciclável e são realizadas, também,
palestras nas escolas do entorno da Praia do Forte”.
Comunidade
mudou comportamento com ajuda do Tamar
A mudança
de comportamento é visível nas comunidades próximas
do Projeto Tamar, na Bahia. A implantação do sistema
de coleta seletiva na base da Praia do Forte resultou na mudança
de comportamento das pessoas diretamente envolvidas nas atividades
do Tamar e entre suas famílias e amigos. Lopez assegura
que a redução do lixo marinho só ocorrerá
se houver esforço coletivo, “portanto, isso só
será realidade se houver consciência daquele que
frequenta ou usa a praia e o mar como ambiente de trabalho em
descartar adequadamente os seus rejeitos, o lixo tende a diminuir”,
explica.
Em 30 anos, o Projeto
Tamar protegeu mais de sete milhões de tartarugas, mas
apesar de todo o esforço elas ainda correm risco de extinção,
por isso, “todo esforço para a preservação
desses animais do ecossistema é válido”,
diz Gustave Lopez. Cecília Baptisttote diz que “esse
é apenas um dos problemas que ameaçam a vida desses
animais”.
Segundo ela, dentre
as principais causas de mortalidade de tartarugas marinhas está
a pesca incidental, que mata principalmente indivíduos
juvenis ou adultos em processo reprodutivo. “Esses últimos
representando uma perda muito maior do ponto de vista biológico”,
garante ela.
A iluminação
artificial também é ameaça porque espanta
as fêmeas que chegam às praias para desovar e desorienta
os filhotes recém-nascidos fazendo com que eles sigam
para a direção oposta ao mar, onde acabam sendo
atropelados ou morrem desidratados. Isso, sem contar a predação
natural”, informa Baptisttote.
Fonte:
Carla Lisboa – ICMBio