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O
Riacho que virou esgoto
Nascentes
secam e extensão sinuosa do Reginaldo se transforma em
trilha de areia e córregos de águas podres
Deraldo
Francisco
Repórter
O alagoano
precisou de poucos anos para decretar, em definitivo, a extinção
do riacho Reginaldo, que já se chamou Riacho Maçayó.
A Principal nascente da bacia do riacho que ainda resistia secou
há dois anos. Em Alagoas, as autoridades do setor não
têm essa informação oficial. A nascente do
Poço Azul, localidade que fica no bairro do Jardim Petrópolis,
secou e não mina mais uma gota d'água. Hoje, no
maior trecho do rio, correm apenas as águas da chuva e
dos esgotos sanitários.
Degradação,
impermeabilização do solo que comprometeu o lençol
freático e a explosão de poços artesianos
particulares foram alguns dos fatores que contribuíram
para a morte do riacho.

Há
dois anos, quando esteve na nascente, o técnico Gustavo
Carvalho, especialista em recursos hídricos, constatou
o riacho agonizando. "Era apenas um filete de água
que mal dava para molhar a areia. Aquele era o anúncio
da morte do riacho", contou. Do Poço Azul, num percurso
de três quilômetros, ainda um filete de água
limpa, o Reginaldo corria lentamente entre espécies de
árvores nativas. Nesse pequeno curso, o riacho sofreu agressões,
assimilou os golpes, mas seguiu em frente, uma curva depois da
outra. De tão límpida e rasa, a água permitia
a visualização perfeita do leito. "A água
aqui era tão azulzinha que parecia uma pedra de anil. Doce
e fria", comentou um morador da localidade Poço Azul.
No Planalto da Jacutinga, pertinho do bairro Antares, outra nascente
do riacho já secou e o amontoado de areia denuncia isso.
Das lagoas do Distrito Industrial Governador Luiz Cavalcante desce
o que sobra de água. De tão pouca, a água
passa ao lado da nascente do Poço Azul e se perde antes
de chegar ao canal do Salgadinho.
A
transformação total do riacho de águas limpas
num canal de águas podres começou no bairro do Canaã.
O déficit habitacional mandou para a beira do riacho milhares
de famílias. Para construir as casas, as pessoas derrubaram
árvores nativas e a vegetação que seguia
o riacho. Só um morador – cuja casa fica às
margens do leito do riacho - "contribuiu" com 2,9 toneladas
de lixo durante dez anos, poluindo e assoreando o Reginaldo. No
quintal da casa dele, agora, só passa água poluída.
Mas é no Vale do Reginaldo que o riacho assume o "posto"
de canal de águas podres. Quem vê o esgoto hoje,
no Vale do Reginaldo, por exemplo, não imagina que, alguns
quilômetros acima, a água já foi limpa, clara,
doce e em condições até de se beber.

O
rio de ontem é o canal de hoje
Para
se conhecer o riacho Reginaldo é imprescindível
uma viagem a pé, leito acima. Partindo da foz, que fica
na Praia da Avenida. Mesmo com toda a degradação
ainda é possível um "passeio" pelo leito
do rio, a partir da Grota do Estrondo, na Pitanguinha. Esse trecho
representa pouco menos da metade da extensão do riacho.
Antes disso, o trajeto pode ser feito até de carro. Basta
seguir o canal, no visual ou pelo forte cheiro de esgoto.
Estima-se
que o Reginaldo tem entre 12 e 13 quilômetros de extensão.
Na maior parte do percurso, o traçado de rio ainda é
preservado. No leito de curvas, o caminho feito pelo Regina1do
não permite ver a linha do horizonte.
"O
Reginaldo é um rio infante com as graves mazelas dos rios
velhos. Nisto, há um culpado: é o homem que, criminalmente,
cortou suas matas", escreveu o jornalista e escritor alagoano
Otávio Brandão, em seu livro Canais e Lagoas, de
1919. Sobre o rio, o escritor destina apenas três momentos
em páginas diferentes. Ele fala da beleza do rio e da sua
morte iminente.
Ou
seja, há 90 anos, o homem já estava envolvido no
processo de extinção do rio. Como havia a degradação
do meio ambiente, também havia a denúncia que parece
não ter encontrado eco nem junto às autoridades
nem à comunidade que passava a ocupar as margens do rio
e, para isso, derrubava dezenas de exemplares de sucupiras e embiribas,
árvores nativas. Hoje estas árvores deram lugar
a coqueiros, mangueiras e bananeiras.
Mas
o Reginaldo resistiu até 2006, quando a nascente do Poço
Azul deixou de minar água. Os outros olhos d' água
também pararam de "chorar". "Quando estive
no Poço Azul para um trabalho, fiquei triste com o que
vi. A morte em definitivo do rio era uma questão de meses
ou dias", disse Gustavo Carvalho, que é diretor-técnico
do Instituto de Meio Ambiente (IMA).
"Com
que dor vi o Poço Azul, tão cheio de minadores e
matagais, outrora; e hoje, descampado e estéril, com as
barreiras rubras em forma de anfiteatro", dizia Otávio
Brandão, há 90 anos. Para falar sobre o Reginaldo
em seu livro, ele fez uma viagem a pé, rio acima, em busca
das nascentes.

No
Aldebaran, um pouco de sobrevida
O riacho Reginaldo dá uma espécie de respirada no
pequeno trecho que corta o Aldebaran - condomínio de luxo
que está na rota sinuosa do rio. Devido à segurança
particular, a área está preservada e protegida pela
mata nativa. Uma placa avisa que aquela se trata de uma área
particular e de preservação ambiental.
Com
a mata preservada, aquele trecho privilegiado do riacho corre
limpo e soberano. No entanto, ainda não se tem certeza
de onde parte a água limpa que corre no riacho naquele
ponto. Acima dali, no Poço Azul, todas as fontes estão
secas e apenas um pequeno esgoto da comunidade corre no meio no
capim braquiária na direção do Aldebaran.
As
suspeitas são de que, no meio da reserva de mata nativa
do residencial de luxo, existam outras nascentes que insistem
em ressuscitar o rio. Protegido pelas espécies nativas
que compõem a mata ciliar, o Reginaldo segue imponente,
rumo à morte que o encontra bem ali, na Grota do Canaã.
Mas
as águas limpas também podem vir da parte mais alta
de Maceió. Um conjunto de filetes de água viria
do transbordamento de algumas lagoas do Distrito Industrial. Enquanto
não se sabe de onde vem a água limpa, fica a certeza
de que o riacho ainda respira, pelo menos até este ponto
do percurso.

O
lixo e os esgotos dos moradores
Em
toda a extensão do Reginaldo há dezenas de grotas.
Cálculos da Defesa Civil revelam que moram nesse trecho
pelo menos 10 mil famílias, ou 40 mil pessoas. Os números
mostram ainda que o lixo doméstico e os dejetos destas
pessoas são despejados diretamente no leito do rio.
Mas
são os canos de PVC, de diâmetros variados, que decretam
a poluição total do riacho. Mesmo com águas
da chuva, o canal poderia ser limpo se os moradores tivessem o
mínimo de consciência ambiental.
Da
Grota do Canaã até o Vale do Reginaldo, todas as
casas têm o "sistema de esgoto" ligado diretamente
ao leito do riacho. Fezes e urina, águas de sabão,
sobras de comidas e outros dejetos são despejados, através
dos canos de PVC, direto no riacho. A grande quantidade de tubos
brancos muda a paisagem da margem do Reginaldo. A cada acionamento
da caixa de descarga, dentro de uma casa, um ataque ao meio ambiente.
Ao todo, são cerca de 40 mil casas. Assim, não há
rio que resista", comentou o presidente do IMA, Adriano Augusto.
As águas - mesmo podres - que passam pelo canal funcionam
como carros coletores de lixo em freqüente movimentação.
Basta jogar a sacola de lixo no riacho que ele se encarrega de
levá-la para o mar. O que não bóia fica ali
mesmo, no leito do rio. Além das fezes "in natura"
jogadas no riacho, as pessoas também "depositam"
no leito do córrego bacias sanitárias de louça.
"Não
pode jogar lixo no rio? Todo mundo faz isso aqui". As declarações
são de um menino de 12 anos, estudante da 4ª série
e morador da Grota do Canaã. Na quarta-feira passada, logo
depois de arremessar uma bolsa com lixo no rio, ele foi questionado
pela reportagem sobre sua ação e agiu com naturalidade,
como se tivesse colocado a sacola de lixo no lugar certo.

Morador
produziu 2,9t de lixo
Mas
o garoto não deve ser responsabilizado pela morte do rio.
Um caso grave de falta de consciência ambiental é
de Jorge Florentino dos Santos, de 51 anos. Uma conversa com Jorge
Florentino revela que ele não tem muita consciência
do quanto é responsável pela degradação
do meio ambiente.
Durante
dez anos - o tempo que ele mora às margens do rio - sempre
despejou o lixo de sua casa e o esgoto sanitário no leito
do Reginaldo. Ou seja, quando ele chegou ao local ainda havia
águas limpas com peixinhos e tudo.
Para
construir sua casa, ele derrubou árvores nativas que compunham
a estrutura ciliar do rio. As sobras da construção
foram jogadas no Reginaldo. No Brasil, os ambientalistas consideram
que cada pessoa produz 800 gramas de lixo por dia. Neste caso,
como Jorge Florentino mora no local há dez anos, deve-se
considerar que ele passou este tempo todo ao meio ambiente 3.650
dias. Para se chegar ao peso da agressão, faz-se uma continha
de multiplicar: o número de dias (3.650) vezes o de gramas
(800) produzidos diariamente por uma pessoa. Chega-se a, exatos,
2.920 quilos. Esta terá sido a "contribuição"
deste morador para a morte do riacho Reginaldo. A avaliação
não levou em conta a derrubada de árvores, fator
que também acelerou o desaparecimento do rio. Somente a
consciência ambiental, a partir de uma grande quantidade
de informações até mesmo didáticas
poderia estancar esse processo de degradação, pelo
menos no caso deste morador.
Por
enquanto, Jorge Florentino não revela ter adquirido esta
consciência. Indagado sobre o fato de o esgoto da sua casa
ser despejado no leito do rio, ele disse que "já está
providenciando mudanças". "Vou cavar uma fossa
bem aqui", disse apontando para os pés. "Não
agüento mais o cheiro de merda entrando na minha casa”.

Menino
diz como a nascente secou
Há
cerca de dez anos, a comunidade Poço Azul foi ponto turístico
da parte alta de Maceió. A revelação foi
feita por José Benedito dos Santos, de 52 anos, e que mora
no local há dez anos.
Ele
disse que, logo que chegou ao Poço Azul, ficou encantado
com o espetáculo proporcionado pela nascente.
"As
pessoas vinham aqui passar um dia de lazer, brincando na areia
limpa e tomando banho na nascença. De tão azulzinha,
a água parecia uma pedra de anil. Era impressionante, mas
a fonte secou de repente", contou. Onde antes havia grande
fluxo de água, hoje escorre apenas um acanhado córrego
de águas sujas produzidas pela comunidade local.
Na
localidade, as pessoas atribuem o fechamento da nascente a um
"trabalho feito" por uma certa macumbeira que morou
no local. A história sobre esta mulher é tão
interessante quanto absurda. Segundo José Benedito, uma
mulher envolvida em rituais de umbanda foi morar na comunidade
e não tinha a amizade com ninguém.
"Um
dia, esta macumbeira foi lavar roupa na nascença e naquele
dia ninguém foi lá. Depois, ela estendeu as roupas
nuns galhos de cajueiro e só foi embora no final da tarde,
quando a roupa estava seca. Na mesma semana, alguns dias depois,
a nascença secou. Os minadores (olhos d' água) também
secaram. Foi muito estranho", comentou.
O pequeno
Mesaque dos Santos Silva, de apenas 12 anos, nasceu na comunidade
e pode até ter ser beneficiado da nascente. Mas ele não
se lembra disso. “A minha mãe conta que existia uma
nascente aqui no Poço Azul", disse o menino. .
Sobre
a morte da nascente ele disse que os moradores da comunidade foram
os responsáveis. As pessoas tiraram capim, cortaram as
árvores e jogaram lixo na nascença. A fonte secou
por causa da sujeira que o povo jogou na nascença",
garantiu o garoto.
Ainda
falta consciência ambiental
O que
se aprende quando se propõe a falar sobre poluição
é que, inicialmente, não se deve produzir lixo.
Como isso é praticamente impossível, sugere-se que
se produza, então, o mínimo possível. Ou
seja, dos 800g de lixo produzidos por cada brasileiro, que se
baixe este peso. Uma saída para o problema é a reutilização
do material. Retardar ao máximo o ato de jogar lixo fora,
no meio ambiente, tem sido uma boa idéia.
No
caso do cidadão Jorge Florentino, que - sozinho - teria
contribuído com 2.920kg de lixo jogado no leito do Reginaldo,
a situação é grave. Embora atue em atividades
agrícolas, ele agride o meio abertamente poluindo o rio
e derrubando árvores.
Da
mesma forma, José Benedito, que mora na comunidade de Poço
Azul, praticamente desmatou sozinho a área onde foram construídas
as casas de seus familiares. Ele lamenta a "morte da nascente",
mas agride o meio de várias formas. Para justificar que
derrubou um cajueiro, ele disse que o fez porque a árvore
estava "fazendo sombra" para as outras. Toda a madeira
do cajueiro, ele limpou e cortou para fazer carvão.
Os
ambientalistas ensinam ainda que as pessoas repensem seus hábitos
de consumo e de comportamentos. A redução no consumo
de embalagens principalmente as de plástico também
é um procedimento de consciência ambienta!. Os especialistas
mandam reciclar e ainda alertam que, se a pessoa não quiser
ou não tiver condições de reciclar seus produtos,
que faça a doação deles para quem se dispõe
a fazer isso.
Num
artigo publicado na Revista do Meio Ambiente, edição
de dezembro passado, o escritor ambientalista Vilmar Sidnei disse
que a conscientização do brasileiro em relação
ao meio ambiente aumentou 30% nos últimos 15 anos. "Isso
nos dá motivos para ter esperança. A tendência
é de aumentar a cada dia a consciência ambiental.
Resta saber se o planeta conseguirá sustentar a vida humana
pelo tempo necessário até que todas as mudanças
que estão em curso consigam produzir seus efeitos",
disse o escritor em seu artigo "Apesar de difícil,
é preciso - é possível - mudar".
“Todo
o manancial é recuperável”
O diretor-técnico
do IMA, Gustavo Carvalho, é um dos poucos que ainda acreditam
na recuperação do riacho Reginaldo. Acreditando
na recomposição da bacia do rio, ele acredita na
educação ambiental como a saída para se recuperar
o riacho.
"Qualquer
manancial é recuperável. E claro que não
se obtêm bons resultados a curto prazo. Temos uma tarefa
árdua para cumprir. Dinheiro é importante, mas não
é tudo. As pessoas precisam tem consciência ambiental",
disse Gustavo Carvalho.
O presidente
do IMA, Adriano Augusto, aposta nas obras do Eixo Viário
como sendo a redenção para o problema chamado "Reginaldo".
Ele explicou que, com a desapropriação de todas
as casas que existem hoje nas grotas e a recuperação
da mata, no trecho onde há vegetação margeando
o rio, o Reginaldo voltará a ter águas limpas. Adriano
Augusto explicou que a obra vai consumir R$ 120 milhões
só do governo federal, recursos do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC). Destes, R$ 60 milhões serão
administrados pela Prefeitura de Maceió para a execução
das obras e os outros R$ 60 milhões pelo governo do Estado
para empregar nas indenizações aos moradores. A
obra já começou no trecho do Ouro Preto, onde está
sendo construída uma ponte que liga os bairros do planalto
da Via Expressa aos que margeiam a Avenida Fernandes Lima.
"Os
recursos para a obra foram obtidos pelo governo do Estado que,
por não ter um projeto para o Reginaldo, recorreu à
Prefeitura de Maceió onde já havia o projeto do
Eixo Viário. Assim, num esforço conjunto entre os
governos Estadual e Municipal, desta vez a obra será concluída",
disse Adriano Augusto.
Fora
estes R$ 120 milhões, outras dezenas de milhões
de reais, de cruzeiros e de cruzados novos já foram gastas
em obras que iriam despoluir o Riacho Reginaldo.
Promessas
e projetos mirabolantes
Alguns
projetos mirabolantes para o Reginaldo foram apresentados na década
de 80. Nesse período, já se falava na preocupação
em recuperar o "Vale do Reginaldo". Retificação
e Revestimento do Rio Reginaldo, Bonde Moderno de Maceió,
Urbanização e Proteção Ambiental e
Recuperação da Via Marginal do Vale do Reginaldo
foram alguns projetos da época. Disso tudo, restou um canal
fétido, margeado por blocos de concreto e todo o leito
revestido de cimento armado. Assoreado com areia e lixo, em alguns
trechos o canal chega a transbordar.
"BONDE
MODERNO" - Sobre o bonde, o projeto previa a implantação
de um sistema de ''Bonde Moderno", também conhecido
como Veículo Leve sobre Trilhos (VL1), com capacidade de
transportar a demanda superior a 350 mil passageiros por dia.
Isso na década de 80.
A primeira
fase do projeto estabelecia um trecho de 16 quilômetros,
com 15 estações, ligando o Centro à Cidade
Universitária, utilizando o Vale do Reginaldo como principal
rota. Este percurso seria feito em 22 minutos, com o bonde atingindo
a velocidade média de 65km/h, o que estabeleceria, à
época, uma redução de 20 minutos no tempo
de viagem ao ônibus urbano.
Em
funcionamento, o "bonde moderno" transportaria, em 1991,
200 mil habitantes; 300 mil no ano 2000 e 460 mil no ano 2010.
Se tivesse vingado, hoje o sistema de transporte estaria com 22
veículos com a perspectiva de chegar a 28, em 2010.
Sobre
a questão ambiental, o projeto mostrava preocupação
com a preservação do Vale do Reginaldo e contemplava
uma retificação e revestimento da calha do rio;
urbanização e desenvolvimento do vale que iriam
levar à coleta de águas pluviais das encostas do
vale e tabuleiros para evitar assoreamento do canal e "despoluir,
mediante o desestímulo à colocação
de lixo no córrego”.
Quase
30 anos se passaram e, independentemente da "redenção
para o sistema de transporte urbano", o Reginaldo está
mais poluído do que nunca.
Fonte:
O
Jornal (23/03/2008)
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