....5 de março de 2008
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O Riacho que virou esgoto

Nascentes secam e extensão sinuosa do Reginaldo se transforma em trilha de areia e córregos de águas podres

Deraldo Francisco
Repórter

O alagoano precisou de poucos anos para decretar, em definitivo, a extinção do riacho Reginaldo, que já se chamou Riacho Maçayó. A Principal nascente da bacia do riacho que ainda resistia secou há dois anos. Em Alagoas, as autoridades do setor não têm essa informação oficial. A nascente do Poço Azul, localidade que fica no bairro do Jardim Petrópolis, secou e não mina mais uma gota d'água. Hoje, no maior trecho do rio, correm apenas as águas da chuva e dos esgotos sanitários.

Degradação, impermeabilização do solo que comprometeu o lençol freático e a explosão de poços artesianos particulares foram alguns dos fatores que contribuíram para a morte do riacho.

Há dois anos, quando esteve na nascente, o técnico Gustavo Carvalho, especialista em recursos hídricos, constatou o riacho agonizando. "Era apenas um filete de água que mal dava para molhar a areia. Aquele era o anúncio da morte do riacho", contou. Do Poço Azul, num percurso de três quilômetros, ainda um filete de água limpa, o Reginaldo corria lentamente entre espécies de árvores nativas. Nesse pequeno curso, o riacho sofreu agressões, assimilou os golpes, mas seguiu em frente, uma curva depois da outra. De tão límpida e rasa, a água permitia a visualização perfeita do leito. "A água aqui era tão azulzinha que parecia uma pedra de anil. Doce e fria", comentou um morador da localidade Poço Azul. No Planalto da Jacutinga, pertinho do bairro Antares, outra nascente do riacho já secou e o amontoado de areia denuncia isso. Das lagoas do Distrito Industrial Governador Luiz Cavalcante desce o que sobra de água. De tão pouca, a água passa ao lado da nascente do Poço Azul e se perde antes de chegar ao canal do Salgadinho.

A transformação total do riacho de águas limpas num canal de águas podres começou no bairro do Canaã. O déficit habitacional mandou para a beira do riacho milhares de famílias. Para construir as casas, as pessoas derrubaram árvores nativas e a vegetação que seguia o riacho. Só um morador – cuja casa fica às margens do leito do riacho - "contribuiu" com 2,9 toneladas de lixo durante dez anos, poluindo e assoreando o Reginaldo. No quintal da casa dele, agora, só passa água poluída. Mas é no Vale do Reginaldo que o riacho assume o "posto" de canal de águas podres. Quem vê o esgoto hoje, no Vale do Reginaldo, por exemplo, não imagina que, alguns quilômetros acima, a água já foi limpa, clara, doce e em condições até de se beber.

O rio de ontem é o canal de hoje

Para se conhecer o riacho Reginaldo é imprescindível uma viagem a pé, leito acima. Partindo da foz, que fica na Praia da Avenida. Mesmo com toda a degradação ainda é possível um "passeio" pelo leito do rio, a partir da Grota do Estrondo, na Pitanguinha. Esse trecho representa pouco menos da metade da extensão do riacho. Antes disso, o trajeto pode ser feito até de carro. Basta seguir o canal, no visual ou pelo forte cheiro de esgoto.

Estima-se que o Reginaldo tem entre 12 e 13 quilômetros de extensão. Na maior parte do percurso, o traçado de rio ainda é preservado. No leito de curvas, o caminho feito pelo Regina1do não permite ver a linha do horizonte.

"O Reginaldo é um rio infante com as graves mazelas dos rios velhos. Nisto, há um culpado: é o homem que, criminalmente, cortou suas matas", escreveu o jornalista e escritor alagoano Otávio Brandão, em seu livro Canais e Lagoas, de 1919. Sobre o rio, o escritor destina apenas três momentos em páginas diferentes. Ele fala da beleza do rio e da sua morte iminente.

Ou seja, há 90 anos, o homem já estava envolvido no processo de extinção do rio. Como havia a degradação do meio ambiente, também havia a denúncia que parece não ter encontrado eco nem junto às autoridades nem à comunidade que passava a ocupar as margens do rio e, para isso, derrubava dezenas de exemplares de sucupiras e embiribas, árvores nativas. Hoje estas árvores deram lugar a coqueiros, mangueiras e bananeiras.

Mas o Reginaldo resistiu até 2006, quando a nascente do Poço Azul deixou de minar água. Os outros olhos d' água também pararam de "chorar". "Quando estive no Poço Azul para um trabalho, fiquei triste com o que vi. A morte em definitivo do rio era uma questão de meses ou dias", disse Gustavo Carvalho, que é diretor-técnico do Instituto de Meio Ambiente (IMA).

"Com que dor vi o Poço Azul, tão cheio de minadores e matagais, outrora; e hoje, descampado e estéril, com as barreiras rubras em forma de anfiteatro", dizia Otávio Brandão, há 90 anos. Para falar sobre o Reginaldo em seu livro, ele fez uma viagem a pé, rio acima, em busca das nascentes.

No Aldebaran, um pouco de sobrevida

O riacho Reginaldo dá uma espécie de respirada no pequeno trecho que corta o Aldebaran - condomínio de luxo que está na rota sinuosa do rio. Devido à segurança particular, a área está preservada e protegida pela mata nativa. Uma placa avisa que aquela se trata de uma área particular e de preservação ambiental.

Com a mata preservada, aquele trecho privilegiado do riacho corre limpo e soberano. No entanto, ainda não se tem certeza de onde parte a água limpa que corre no riacho naquele ponto. Acima dali, no Poço Azul, todas as fontes estão secas e apenas um pequeno esgoto da comunidade corre no meio no capim braquiária na direção do Aldebaran.

As suspeitas são de que, no meio da reserva de mata nativa do residencial de luxo, existam outras nascentes que insistem em ressuscitar o rio. Protegido pelas espécies nativas que compõem a mata ciliar, o Reginaldo segue imponente, rumo à morte que o encontra bem ali, na Grota do Canaã.

Mas as águas limpas também podem vir da parte mais alta de Maceió. Um conjunto de filetes de água viria do transbordamento de algumas lagoas do Distrito Industrial. Enquanto não se sabe de onde vem a água limpa, fica a certeza de que o riacho ainda respira, pelo menos até este ponto do percurso.

O lixo e os esgotos dos moradores

Em toda a extensão do Reginaldo há dezenas de grotas. Cálculos da Defesa Civil revelam que moram nesse trecho pelo menos 10 mil famílias, ou 40 mil pessoas. Os números mostram ainda que o lixo doméstico e os dejetos destas pessoas são despejados diretamente no leito do rio.

Mas são os canos de PVC, de diâmetros variados, que decretam a poluição total do riacho. Mesmo com águas da chuva, o canal poderia ser limpo se os moradores tivessem o mínimo de consciência ambiental.

Da Grota do Canaã até o Vale do Reginaldo, todas as casas têm o "sistema de esgoto" ligado diretamente ao leito do riacho. Fezes e urina, águas de sabão, sobras de comidas e outros dejetos são despejados, através dos canos de PVC, direto no riacho. A grande quantidade de tubos brancos muda a paisagem da margem do Reginaldo. A cada acionamento da caixa de descarga, dentro de uma casa, um ataque ao meio ambiente. Ao todo, são cerca de 40 mil casas. Assim, não há rio que resista", comentou o presidente do IMA, Adriano Augusto. As águas - mesmo podres - que passam pelo canal funcionam como carros coletores de lixo em freqüente movimentação. Basta jogar a sacola de lixo no riacho que ele se encarrega de levá-la para o mar. O que não bóia fica ali mesmo, no leito do rio. Além das fezes "in natura" jogadas no riacho, as pessoas também "depositam" no leito do córrego bacias sanitárias de louça.

"Não pode jogar lixo no rio? Todo mundo faz isso aqui". As declarações são de um menino de 12 anos, estudante da 4ª série e morador da Grota do Canaã. Na quarta-feira passada, logo depois de arremessar uma bolsa com lixo no rio, ele foi questionado pela reportagem sobre sua ação e agiu com naturalidade, como se tivesse colocado a sacola de lixo no lugar certo.

Morador produziu 2,9t de lixo

Mas o garoto não deve ser responsabilizado pela morte do rio. Um caso grave de falta de consciência ambiental é de Jorge Florentino dos Santos, de 51 anos. Uma conversa com Jorge Florentino revela que ele não tem muita consciência do quanto é responsável pela degradação do meio ambiente.

Durante dez anos - o tempo que ele mora às margens do rio - sempre despejou o lixo de sua casa e o esgoto sanitário no leito do Reginaldo. Ou seja, quando ele chegou ao local ainda havia águas limpas com peixinhos e tudo.

Para construir sua casa, ele derrubou árvores nativas que compunham a estrutura ciliar do rio. As sobras da construção foram jogadas no Reginaldo. No Brasil, os ambientalistas consideram que cada pessoa produz 800 gramas de lixo por dia. Neste caso, como Jorge Florentino mora no local há dez anos, deve-se considerar que ele passou este tempo todo ao meio ambiente 3.650 dias. Para se chegar ao peso da agressão, faz-se uma continha de multiplicar: o número de dias (3.650) vezes o de gramas (800) produzidos diariamente por uma pessoa. Chega-se a, exatos, 2.920 quilos. Esta terá sido a "contribuição" deste morador para a morte do riacho Reginaldo. A avaliação não levou em conta a derrubada de árvores, fator que também acelerou o desaparecimento do rio. Somente a consciência ambiental, a partir de uma grande quantidade de informações até mesmo didáticas poderia estancar esse processo de degradação, pelo menos no caso deste morador.

Por enquanto, Jorge Florentino não revela ter adquirido esta consciência. Indagado sobre o fato de o esgoto da sua casa ser despejado no leito do rio, ele disse que "já está providenciando mudanças". "Vou cavar uma fossa bem aqui", disse apontando para os pés. "Não agüento mais o cheiro de merda entrando na minha casa”.

Menino diz como a nascente secou

Há cerca de dez anos, a comunidade Poço Azul foi ponto turístico da parte alta de Maceió. A revelação foi feita por José Benedito dos Santos, de 52 anos, e que mora no local há dez anos.

Ele disse que, logo que chegou ao Poço Azul, ficou encantado com o espetáculo proporcionado pela nascente.

"As pessoas vinham aqui passar um dia de lazer, brincando na areia limpa e tomando banho na nascença. De tão azulzinha, a água parecia uma pedra de anil. Era impressionante, mas a fonte secou de repente", contou. Onde antes havia grande fluxo de água, hoje escorre apenas um acanhado córrego de águas sujas produzidas pela comunidade local.

Na localidade, as pessoas atribuem o fechamento da nascente a um "trabalho feito" por uma certa macumbeira que morou no local. A história sobre esta mulher é tão interessante quanto absurda. Segundo José Benedito, uma mulher envolvida em rituais de umbanda foi morar na comunidade e não tinha a amizade com ninguém.

"Um dia, esta macumbeira foi lavar roupa na nascença e naquele dia ninguém foi lá. Depois, ela estendeu as roupas nuns galhos de cajueiro e só foi embora no final da tarde, quando a roupa estava seca. Na mesma semana, alguns dias depois, a nascença secou. Os minadores (olhos d' água) também secaram. Foi muito estranho", comentou.

O pequeno Mesaque dos Santos Silva, de apenas 12 anos, nasceu na comunidade e pode até ter ser beneficiado da nascente. Mas ele não se lembra disso. “A minha mãe conta que existia uma nascente aqui no Poço Azul", disse o menino. .

Sobre a morte da nascente ele disse que os moradores da comunidade foram os responsáveis. As pessoas tiraram capim, cortaram as árvores e jogaram lixo na nascença. A fonte secou por causa da sujeira que o povo jogou na nascença", garantiu o garoto.

Ainda falta consciência ambiental

O que se aprende quando se propõe a falar sobre poluição é que, inicialmente, não se deve produzir lixo. Como isso é praticamente impossível, sugere-se que se produza, então, o mínimo possível. Ou seja, dos 800g de lixo produzidos por cada brasileiro, que se baixe este peso. Uma saída para o problema é a reutilização do material. Retardar ao máximo o ato de jogar lixo fora, no meio ambiente, tem sido uma boa idéia.

No caso do cidadão Jorge Florentino, que - sozinho - teria contribuído com 2.920kg de lixo jogado no leito do Reginaldo, a situação é grave. Embora atue em atividades agrícolas, ele agride o meio abertamente poluindo o rio e derrubando árvores.

Da mesma forma, José Benedito, que mora na comunidade de Poço Azul, praticamente desmatou sozinho a área onde foram construídas as casas de seus familiares. Ele lamenta a "morte da nascente", mas agride o meio de várias formas. Para justificar que derrubou um cajueiro, ele disse que o fez porque a árvore estava "fazendo sombra" para as outras. Toda a madeira do cajueiro, ele limpou e cortou para fazer carvão.

Os ambientalistas ensinam ainda que as pessoas repensem seus hábitos de consumo e de comportamentos. A redução no consumo de embalagens principalmente as de plástico também é um procedimento de consciência ambienta!. Os especialistas mandam reciclar e ainda alertam que, se a pessoa não quiser ou não tiver condições de reciclar seus produtos, que faça a doação deles para quem se dispõe a fazer isso.

Num artigo publicado na Revista do Meio Ambiente, edição de dezembro passado, o escritor ambientalista Vilmar Sidnei disse que a conscientização do brasileiro em relação ao meio ambiente aumentou 30% nos últimos 15 anos. "Isso nos dá motivos para ter esperança. A tendência é de aumentar a cada dia a consciência ambiental. Resta saber se o planeta conseguirá sustentar a vida humana pelo tempo necessário até que todas as mudanças que estão em curso consigam produzir seus efeitos", disse o escritor em seu artigo "Apesar de difícil, é preciso - é possível - mudar".

“Todo o manancial é recuperável”

O diretor-técnico do IMA, Gustavo Carvalho, é um dos poucos que ainda acreditam na recuperação do riacho Reginaldo. Acreditando na recomposição da bacia do rio, ele acredita na educação ambiental como a saída para se recuperar o riacho.

"Qualquer manancial é recuperável. E claro que não se obtêm bons resultados a curto prazo. Temos uma tarefa árdua para cumprir. Dinheiro é importante, mas não é tudo. As pessoas precisam tem consciência ambiental", disse Gustavo Carvalho.

O presidente do IMA, Adriano Augusto, aposta nas obras do Eixo Viário como sendo a redenção para o problema chamado "Reginaldo". Ele explicou que, com a desapropriação de todas as casas que existem hoje nas grotas e a recuperação da mata, no trecho onde há vegetação margeando o rio, o Reginaldo voltará a ter águas limpas. Adriano Augusto explicou que a obra vai consumir R$ 120 milhões só do governo federal, recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Destes, R$ 60 milhões serão administrados pela Prefeitura de Maceió para a execução das obras e os outros R$ 60 milhões pelo governo do Estado para empregar nas indenizações aos moradores. A obra já começou no trecho do Ouro Preto, onde está sendo construída uma ponte que liga os bairros do planalto da Via Expressa aos que margeiam a Avenida Fernandes Lima.

"Os recursos para a obra foram obtidos pelo governo do Estado que, por não ter um projeto para o Reginaldo, recorreu à Prefeitura de Maceió onde já havia o projeto do Eixo Viário. Assim, num esforço conjunto entre os governos Estadual e Municipal, desta vez a obra será concluída", disse Adriano Augusto.

Fora estes R$ 120 milhões, outras dezenas de milhões de reais, de cruzeiros e de cruzados novos já foram gastas em obras que iriam despoluir o Riacho Reginaldo.

Promessas e projetos mirabolantes

Alguns projetos mirabolantes para o Reginaldo foram apresentados na década de 80. Nesse período, já se falava na preocupação em recuperar o "Vale do Reginaldo". Retificação e Revestimento do Rio Reginaldo, Bonde Moderno de Maceió, Urbanização e Proteção Ambiental e Recuperação da Via Marginal do Vale do Reginaldo foram alguns projetos da época. Disso tudo, restou um canal fétido, margeado por blocos de concreto e todo o leito revestido de cimento armado. Assoreado com areia e lixo, em alguns trechos o canal chega a transbordar.

"BONDE MODERNO" - Sobre o bonde, o projeto previa a implantação de um sistema de ''Bonde Moderno", também conhecido como Veículo Leve sobre Trilhos (VL1), com capacidade de transportar a demanda superior a 350 mil passageiros por dia. Isso na década de 80.

A primeira fase do projeto estabelecia um trecho de 16 quilômetros, com 15 estações, ligando o Centro à Cidade Universitária, utilizando o Vale do Reginaldo como principal rota. Este percurso seria feito em 22 minutos, com o bonde atingindo a velocidade média de 65km/h, o que estabeleceria, à época, uma redução de 20 minutos no tempo de viagem ao ônibus urbano.

Em funcionamento, o "bonde moderno" transportaria, em 1991, 200 mil habitantes; 300 mil no ano 2000 e 460 mil no ano 2010. Se tivesse vingado, hoje o sistema de transporte estaria com 22 veículos com a perspectiva de chegar a 28, em 2010.

Sobre a questão ambiental, o projeto mostrava preocupação com a preservação do Vale do Reginaldo e contemplava uma retificação e revestimento da calha do rio; urbanização e desenvolvimento do vale que iriam levar à coleta de águas pluviais das encostas do vale e tabuleiros para evitar assoreamento do canal e "despoluir, mediante o desestímulo à colocação de lixo no córrego”.

Quase 30 anos se passaram e, independentemente da "redenção para o sistema de transporte urbano", o Reginaldo está mais poluído do que nunca.

Fonte: O Jornal (23/03/2008)