....5 de março de 2008
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Alagoas tem 30 espécies ameaçadas

Em todo o país, a relação de animais em risco deve chegar a 630, dos quais pelo menos 120 estariam prestes a desaparecer

Fátima Almeida
Repórter

A lista de animais em risco de extinção, divulgada a cada cinco anos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ainda não foi liberada oficialmente, mas já há informações de que ela praticamente dobrou em relação ao último levantamento, divulgado em 2003, quando 39S espécies eram identificadas em diversos níveis de ameaça.

A Gazeta apurou que a próxima lista deve trazer cerca de 630 espécies, das quais pelo menos 20 estariam criticamente ameaçadas.

Em Alagoas, calcula-se que das mais de 280 espécies estudadas na mata atlântica, cercade 30 estão ameaçadas (em situação de perigo ou criticamente em perigo), e mais de 20 aparecem em situação de vulnerabilidade. Pelo menos uma espécie, o Mutum-de-Alagoas, que habitava a região de São Miguel dos Campos, é considerada extinta da natureza. Até porque seu habitat não existe mais.

De acordo com o chefe do Setor de Fauna e do Centro de Tratamento de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama, Mário Daniel Moraes, um animal é considerado extinto na natureza quando não é observado por mais de 50 anos no seu habitat natural, mesmo com a possibilidade de estar em criadouros conservacionistas.

O agrônomo Jailton Femandes, administrador, há 5 anos, de uma das maiores reservas da mata atlântica em Alagoas - a Estação Ecológica de urici - cita entre as aves em perigo, o Pintor-verdadeiro e o Gavião Leucoptemis (Gavião-pombo-pequeno), como aves que raramente são vistas na natureza.

Outras espécies endêmicas da região (significa que só existem por aqui) como o Limpa-folha-do-nordeste, o Zidedê-do-nordeste, a Choquinha-das-alagoas e o Cara-pintada também estão na lista de animais em risco de extinção.

Na lista do Ibama, de 2003, o Limpa-folha e a Choquinha aparecem como aves criticamente em perigo (último estágio de classificação antes da extinção da natureza). O Zidedê e o Cara-pintada aparecem com a lassificação de animais em perigo.

Na linha dos répteis, Jailton lembra que foi descoberta uma espécie nova de cobra Jararaca na reserva de Murici, catalogada na década de 90 e nunca mais foi vista em lugar nenhum. Aliás, foi a descoberta dessas espécies endêmicas de aves e répteis que estimulou a criação da Estação Ecológica de Murici, há sete anos.

Mário Daniel, do Ibama, cita ainda aves como a Saíra e o Pintor Sete-cores, como aves altamente vulneráveis, pela exuberância, que estimula a caça para a criação doméstica e para o tráfico. Na família dos répteis, o Jacaré-do-papo-amarelo, que ocorre em nossa região, entra na lista dos meaçados de extinção.

"Algumas espécies não constam, ainda, na lista oficial, mas na velocidade em que anda a degradação, certamente não demoram a entrar no rol de animais criticamente em perigo". diz ele.

Fauna alagoana é destaque em livro

Publicação fornece dados sobre animais silvestres e traz orientações para que as pessoas evitem a extinção das espécies

Nos próximos dias a editora Ediouro estará lançando o livro "100 animais ameaçados de extinção no Brasil - E o que você pode fazer para evitar", resultado de um ano e meio de pesquisas feitas pelo biólogo e professor da Universidade Federal Fluminense, Sávio Freire Bruno, com informações e fotografias desses animais, entre eles, pelo menos 18 espécies da fauna alagoana.

São relatadas no livro, oito aves: Araponga-do-nordeste, Periquito-cara-suja, Choquinha-das-alagoas, Limpa-folha-do-nordeste (classificadas em alto risco de extinção), Chauá, Pintor-verdadeiro e Trinta-réis-real; quatro mamíferos: Peixe-boi-marinho (criticamente em perigo), Gato-do-mato-pequeno, Jaguatirica e Tatu-bola; o Tubarão-baleia (na familia dos peixes); e cinco répteis: Cabeçuda (ou Tartaruga-meio-pente). Tartaruga-de-couro, Tartaruga-de-pente, Tartaruga-oliva e 'Tartaruga-verde (ou Aruanã).

A seleção dos cem animais contidos no livro de Sávio Bruno está longe do que apontam os estudos, até porque, segundo o autor, a idéia era catalogar as espécies das quais se pudesse falar e mostrar.

"Têm algumas que já são tão raras que não encontramos nem registro fotográfico". Ele diz que antes de chegar às 90 espécies, a escassez de fotos era tamanha que teve de ir a campo e confessa que foi muito difícil conseguir imagens para completar as 100 espécies catalogadas no livro.

A publicação é citada pela editora como "a primeira obra que reúne e trata dos animais em extinção no Brasil" em comparação a outras obras do gênero, que tratam dos ursos polares árticos, dos gorilas e dos elefantes da África.

ORIENTAÇÕES

O objetivo do livro, segundo o próprio autor, é fornecer conhecimentos sobre esses animais silvestres, e orientações para que as pessoas saibam como contribuir para evitar que eles desapareçam. Por isso, segundo ele, houve a opção de catalogar apenas os que tinham registro fotográfico.

"Há uma cultura do ser humano de só proteger o que conhece. Geralmente as pessoas se sensibilizam mais com aquilo que podem visualizar. Por isso, trabalhamos com as imagens", explica ele.

O livro dedica para cada animal pesquisado até duas páginas com informações sobre características físicas, curiosidades, hábitos, habitat, os motivos que o colocaram na lista de extinção, além de uma classificação que identifica sua atual situação (nível de ameaça) e dicas de como ajudar a evitar a extinção.

Destruição de habitat ameaça animais

Ações humanas de ocupação do solo com a destruição das matas, caça e tráfico contribuem para fim das espécies nativas

Profissionais que atuam na área de preservação ambiental, como Sávio Bruno, Jailton Fernandes e Mário Daniel, não hesitam em confirmar: a maior ameaça às espécies da fauna brasileira e alagoana é a destruição do habitat, relacionada às ações humanas de ocupação do solo e aos modelos de desenvolvimento, que em algumas localidades, como o Nordeste, têm como principal característica a monocultura extensiva, com a destruição das matas.

A situação mais crítica, segundo Sávio Bruno, está na mata atlântica, considerada o bioma mais impactado ao longo da história do Brasil, sobretudo nas regiões de cultura canavieira, como é Alagoas. Ele destaca que restam hoje no Brasil, apenas 7% da mata atlântica.

Numa linha seqüencial, vêm outros fatores como a caça e o tráfico. O chefe do Centro de Tratamento de Animais Silvestres do Ibama, Mário Daniel de Moraes, lembra que a cada dez animais traficados, nove morrem no caminho, e outros ficam traumatizados para o resto da vida.

No Cetas, algumas amostras confirmam a ação maléfica. Uma raposa domesticada ficou cega e outra com problemas neurológicos e não poderão mais ser devolvidas à natureza.

Uma Arara-juba (espécie ameaçada de extinção) vive à espera de um criadouro credenciado ou de um parceiro para reprodução. "Se devolvermos à natureza, certamente não sobreviverá", explica Mário Daniel.

Na mesma situação estão três cp1àfiS, mansos como gatos domésticos, e quase uma dezena de macacos-prego (outra espécie ameaçada). Estão há anos no Ibama, sem ter para onde ir. "São animais que foram habituados ao convívio com o homem, e se forem soltos vão retornar, procurar abrigo em alguma casa, ou morrer", diz ele.

Entre as aves, a situação do gavião é dramática. Ele tem as asas cortadas quando é domesticado, e no Cetas, espera meses, às vezes mais de um ano, segundo a veterinária, para que a penugem cresça novamente e ele readquira a plena capacidade de voar, essencial para a sua sobrevivência. Enquanto isso não acontece, fica em cativeiro.

Pela legislação brasileira, a caça é proibida - exceto em caso de comprovada necessidade de sobrevivência. A penalidade, segundo o gerente da Estação Ecológica de Murici, Jailton Femandes, é detenção de 6 meses a um ano e multa a partir de 500 reais por exemplar caçado, dependendo da espécie, podendo chegar a R$ 3 mil, se for animal ameaçado e até R$ 5 mil se estiver na lista dos criticamente ameaçados (Lei 9.605, de 1998 - Lei dos Crimes Ambientais)

A lei também é rigorosa em relação ao tráfico de animais silvestres, e à destruição de reservas florestais, mas não conseguiu, ainda, acabar com esses crimes.

O combate ao tráfico de animais silvestres é fundamental, na avaliação do biólogo Sávio Bruno, mas ele destaca que o desmatamento é o pior de todos os fatores destrutivos da fauna.

"Se olharmos a história do país com um olhar sócio-ambiental, veremos o quanto determinadas atividades econômicas como a cultura canavieira, geraram impacto nas florestas brasileiras, principalmente no Nordeste", diz ele.

Na sua avaliação, a situação chegou a um ponto em que não basta apenas proteger e preservar o que resta, mas também estabelecer unidades de conservação e projetos de revitalização das florestas, como remédio para estancar o processo de extinção de algumas espécies da fauna.

Ele diz que o primeiro passo é a conscientização, com educação ambiental levada a sério, com informações consistentes. "Outro passo importante é difundir exaustivamente a mensagem de que o ser humano não está só, no meio, e que sua sobrevivência depende do equilíbrio, da biodiversidade".

Outra frente é a prática pública e individual de medidas ambientais concretas, como o estímulo ao uso de veículos de menor impacto, a exemplo das bicicletas - e para isso é preciso que o poder público invista em ciclovias - e o uso racional da água e outros recursos naturais.

"É mesmo uma questão de educação ambiental, envolvendo a preparação de professores, políticas de governo e a consciência do cidadão", diz ele.

Sem fiscalização, lei não é cumprida

O biólogo Sávio Bruno destaca a legislação ambiental brasileira como uma das mais avançadas do mundo, mas diz que o problema está no seu cumprimento.

"'Temos uma legislação muito boa, o que falta é mais gente para fiscalizar e reduzir os inúmeros recursos cabíveis nos processos ambientais. Falta também infra-estrutura para fazer cumprir as leis", reforça o agrônomo Jailton Fernandes. .

Na Estação Ecológica de Murici gerenciada por ele, por exemplo, são apenas duas pessoas responsáveis por uma área cuja extensão é superior a seis mil hectares, considerada a maior concentração de espécies da fauna típica da mata atlântica em Alagoas. "Mas podemos contar com o apoio da Policia Florestal sempre que programamos, e com a Brigada", diz Jailton.

Mário Daniel, do Ibama, cita também a lei 5.197/67, que dispõe sobre a fauna, lembrando que a preocupação com o problema não é recente, embora tenha se aprimorado nas últimas décadas. Ele destaca que a criação de animais silvestres não é proibida, mas regulamentada pela Resolução 394/2006 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que define as espécies que podem ser criadas em cativeiro, com regras que devem ser obedecidas pelos criadores, que em muitos casos, inclusive, ajudam a preservar determinadas espécies.

CLANDESTINOS

Nem sempre funciona. Existem muitos cativeiros clandestinos que não obedecem às mínimas condições, e muitos animais que estão na lista de extinção presos nesses cativeiros, apesar da fiscalização intensa do Ibama.

"Infelizmente é uma questão cultural. Os índios já criavam animais. E hoje as pessoas criam como? Caçando, traficando, e quanto mais rara a espécie, quanto mais exótica, mais atrai a cobiça e os caçadores", diz Daniel.

O biólogo Sávio Bruno destaca que a defesa e a preservação do meio ambiente não é apenas um direito, mas um dever de todos, e cita, como exemplo, o artigo 225 da Constituição Federal: "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-Io e preservá-lo para as presentes e futuras gerações".

Fonte: Gazeta de Alagoas (30/03/2008)
Fotos: Marcelo Albuquerque