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Alagoas
tem 30 espécies ameaçadas
Em todo o país, a relação de animais
em risco deve chegar a 630, dos quais pelo menos 120 estariam
prestes a desaparecer
Fátima Almeida
Repórter
A
lista de animais em risco de extinção, divulgada
a cada cinco anos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ainda não
foi liberada oficialmente, mas já há informações
de que ela praticamente dobrou em relação ao último
levantamento, divulgado em 2003, quando 39S espécies eram
identificadas em diversos níveis de ameaça.
A
Gazeta apurou que a próxima lista deve trazer cerca de
630 espécies, das quais pelo menos 20 estariam criticamente
ameaçadas.
Em
Alagoas, calcula-se que das mais de 280 espécies estudadas
na mata atlântica, cercade 30 estão ameaçadas
(em situação de perigo ou criticamente em perigo),
e mais de 20 aparecem em situação de vulnerabilidade.
Pelo menos uma espécie, o Mutum-de-Alagoas, que habitava
a região de São Miguel dos Campos, é considerada
extinta da natureza. Até porque seu habitat não
existe mais.
De
acordo com o chefe do Setor de Fauna e do Centro de Tratamento
de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama, Mário Daniel Moraes,
um animal é considerado extinto na natureza quando não
é observado por mais de 50 anos no seu habitat natural,
mesmo com a possibilidade de estar em criadouros conservacionistas.

O
agrônomo Jailton Femandes, administrador, há 5 anos,
de uma das maiores reservas da mata atlântica em Alagoas
- a Estação Ecológica de urici - cita entre
as aves em perigo, o Pintor-verdadeiro e o Gavião Leucoptemis
(Gavião-pombo-pequeno), como aves que raramente são
vistas na natureza.
Outras
espécies endêmicas da região (significa que
só existem por aqui) como o Limpa-folha-do-nordeste, o
Zidedê-do-nordeste, a Choquinha-das-alagoas e o Cara-pintada
também estão na lista de animais em risco de extinção.
Na
lista do Ibama, de 2003, o Limpa-folha e a Choquinha aparecem
como aves criticamente em perigo (último estágio
de classificação antes da extinção
da natureza). O Zidedê e o Cara-pintada aparecem com a lassificação
de animais em perigo.
Na
linha dos répteis, Jailton lembra que foi descoberta uma
espécie nova de cobra Jararaca na reserva de Murici, catalogada
na década de 90 e nunca mais foi vista em lugar nenhum.
Aliás, foi a descoberta dessas espécies endêmicas
de aves e répteis que estimulou a criação
da Estação Ecológica de Murici, há
sete anos.
Mário
Daniel, do Ibama, cita ainda aves como a Saíra e o Pintor
Sete-cores, como aves altamente vulneráveis, pela exuberância,
que estimula a caça para a criação doméstica
e para o tráfico. Na família dos répteis,
o Jacaré-do-papo-amarelo, que ocorre em nossa região,
entra na lista dos meaçados de extinção.
"Algumas
espécies não constam, ainda, na lista oficial, mas
na velocidade em que anda a degradação, certamente
não demoram a entrar no rol de animais criticamente em
perigo". diz ele.
Fauna
alagoana é destaque em livro
Publicação
fornece dados sobre animais silvestres e traz orientações
para que as pessoas evitem a extinção das espécies
Nos
próximos dias a editora Ediouro estará lançando
o livro "100 animais ameaçados de extinção
no Brasil - E o que você pode fazer para evitar", resultado
de um ano e meio de pesquisas feitas pelo biólogo e professor
da Universidade Federal Fluminense, Sávio Freire Bruno,
com informações e fotografias desses animais, entre
eles, pelo menos 18 espécies da fauna alagoana.
São
relatadas no livro, oito aves: Araponga-do-nordeste, Periquito-cara-suja,
Choquinha-das-alagoas, Limpa-folha-do-nordeste (classificadas
em alto risco de extinção), Chauá, Pintor-verdadeiro
e Trinta-réis-real; quatro mamíferos: Peixe-boi-marinho
(criticamente em perigo), Gato-do-mato-pequeno, Jaguatirica e
Tatu-bola; o Tubarão-baleia (na familia dos peixes); e
cinco répteis: Cabeçuda (ou Tartaruga-meio-pente).
Tartaruga-de-couro, Tartaruga-de-pente, Tartaruga-oliva e 'Tartaruga-verde
(ou Aruanã).
A seleção
dos cem animais contidos no livro de Sávio Bruno está
longe do que apontam os estudos, até porque, segundo o
autor, a idéia era catalogar as espécies das quais
se pudesse falar e mostrar.
"Têm
algumas que já são tão raras que não
encontramos nem registro fotográfico". Ele diz que
antes de chegar às 90 espécies, a escassez de fotos
era tamanha que teve de ir a campo e confessa que foi muito difícil
conseguir imagens para completar as 100 espécies catalogadas
no livro.
A publicação
é citada pela editora como "a primeira obra que reúne
e trata dos animais em extinção no Brasil"
em comparação a outras obras do gênero, que
tratam dos ursos polares árticos, dos gorilas e dos elefantes
da África.
ORIENTAÇÕES
O
objetivo do livro, segundo o próprio autor, é fornecer
conhecimentos sobre esses animais silvestres, e orientações
para que as pessoas saibam como contribuir para evitar que eles
desapareçam. Por
isso, segundo ele, houve a opção de catalogar apenas
os que tinham registro fotográfico.
"Há uma cultura do ser humano de só proteger
o que conhece. Geralmente as pessoas se sensibilizam mais com
aquilo que podem visualizar. Por isso, trabalhamos com as imagens",
explica ele.
O
livro dedica para cada animal pesquisado até duas páginas
com informações sobre características físicas,
curiosidades, hábitos, habitat, os motivos que o colocaram
na lista de extinção, além de uma classificação
que identifica sua atual situação (nível
de ameaça) e dicas de como ajudar a evitar a extinção.

Destruição
de habitat ameaça animais
Ações
humanas de ocupação do solo com a destruição
das matas, caça e tráfico contribuem para fim das
espécies nativas
Profissionais
que atuam na área de preservação ambiental,
como Sávio Bruno, Jailton Fernandes e Mário Daniel,
não hesitam em confirmar: a maior ameaça às
espécies da fauna brasileira e alagoana é a destruição
do habitat, relacionada às ações humanas
de ocupação do solo e aos modelos de desenvolvimento,
que em algumas localidades, como o Nordeste, têm como principal
característica a monocultura extensiva, com a destruição
das matas.
A situação
mais crítica, segundo Sávio Bruno, está na
mata atlântica, considerada o bioma mais impactado ao longo
da história do Brasil, sobretudo nas regiões de
cultura canavieira, como é Alagoas. Ele destaca que restam
hoje no Brasil, apenas 7% da mata atlântica.
Numa
linha seqüencial, vêm outros fatores como a caça
e o tráfico. O chefe do Centro de Tratamento de Animais
Silvestres do Ibama, Mário Daniel de Moraes, lembra que
a cada dez animais traficados, nove morrem no caminho, e outros
ficam traumatizados para o resto da vida.
No
Cetas, algumas amostras confirmam a ação maléfica.
Uma raposa domesticada ficou cega e outra com problemas neurológicos
e não poderão mais ser devolvidas à natureza.
Uma
Arara-juba (espécie ameaçada de extinção)
vive à espera de um criadouro credenciado ou de um parceiro
para reprodução. "Se devolvermos à natureza,
certamente não sobreviverá", explica Mário
Daniel.
Na
mesma situação estão três cp1àfiS,
mansos como gatos domésticos, e quase uma dezena de macacos-prego
(outra espécie ameaçada). Estão há
anos no Ibama, sem ter para onde ir. "São animais
que foram habituados ao convívio com o homem, e se forem
soltos vão retornar, procurar abrigo em alguma casa, ou
morrer", diz ele.

Entre
as aves, a situação do gavião é dramática.
Ele tem as asas cortadas quando é domesticado, e no Cetas,
espera meses, às vezes mais de um ano, segundo a veterinária,
para que a penugem cresça novamente e ele readquira a plena
capacidade de voar, essencial para a sua sobrevivência.
Enquanto isso não acontece, fica em cativeiro.
Pela
legislação brasileira, a caça é proibida
- exceto em caso de comprovada necessidade de sobrevivência.
A penalidade,
segundo o gerente da Estação Ecológica de
Murici, Jailton Femandes, é detenção de 6
meses a um ano e multa a partir de 500 reais por exemplar caçado,
dependendo da espécie, podendo chegar a R$ 3 mil, se for
animal ameaçado e até R$ 5 mil se estiver na lista
dos criticamente ameaçados (Lei 9.605, de 1998 - Lei dos
Crimes Ambientais)
A lei
também é rigorosa em relação ao tráfico
de animais silvestres, e à destruição de
reservas florestais, mas não conseguiu, ainda, acabar com
esses crimes.
O combate
ao tráfico de animais silvestres é fundamental,
na avaliação do biólogo Sávio Bruno,
mas ele destaca que o desmatamento é o pior de todos os
fatores destrutivos da fauna.
"Se
olharmos a história do país com um olhar sócio-ambiental,
veremos o quanto determinadas atividades econômicas como
a cultura canavieira, geraram impacto nas florestas brasileiras,
principalmente no Nordeste", diz ele.
Na
sua avaliação, a situação chegou a
um ponto em que não basta apenas proteger e preservar o
que resta, mas também estabelecer unidades de conservação
e projetos de revitalização das florestas, como
remédio para estancar o processo de extinção
de algumas espécies da fauna.

Ele
diz que o primeiro passo é a conscientização,
com educação ambiental levada a sério, com
informações consistentes. "Outro passo importante
é difundir exaustivamente a mensagem de que o ser humano
não está só, no meio, e que sua sobrevivência
depende do equilíbrio, da biodiversidade".
Outra
frente é a prática pública e individual de
medidas ambientais concretas, como o estímulo ao uso de
veículos de menor impacto, a exemplo das bicicletas - e
para isso é preciso que o poder público invista
em ciclovias - e o uso racional da água e outros recursos
naturais.
"É
mesmo uma questão de educação ambiental,
envolvendo a preparação de professores, políticas
de governo e a consciência do cidadão", diz
ele.
Sem
fiscalização, lei não é cumprida
O biólogo Sávio Bruno destaca a legislação
ambiental brasileira como uma das mais avançadas do mundo,
mas diz que o problema está no seu cumprimento.
"'Temos
uma legislação muito boa, o que falta é mais
gente para fiscalizar e reduzir os inúmeros recursos cabíveis
nos processos ambientais. Falta também infra-estrutura
para fazer cumprir as leis", reforça o agrônomo
Jailton Fernandes. .
Na
Estação Ecológica de Murici gerenciada por
ele, por exemplo, são apenas duas pessoas responsáveis
por uma área cuja extensão é superior a seis
mil hectares, considerada a maior concentração de
espécies da fauna típica da mata atlântica
em Alagoas. "Mas podemos contar com o apoio da Policia Florestal
sempre que programamos, e com a Brigada", diz Jailton.
Mário
Daniel, do Ibama, cita também a lei 5.197/67, que dispõe
sobre a fauna, lembrando que a preocupação com o
problema não é recente, embora tenha se aprimorado
nas últimas décadas. Ele destaca que a criação
de animais silvestres não é proibida, mas regulamentada
pela Resolução 394/2006 do Conselho Nacional do
Meio Ambiente (Conama), que define as espécies que podem
ser criadas em cativeiro, com regras que devem ser obedecidas
pelos criadores, que em muitos casos, inclusive, ajudam a preservar
determinadas espécies.

CLANDESTINOS
Nem
sempre funciona. Existem muitos cativeiros clandestinos que não
obedecem às mínimas condições, e muitos
animais que estão na lista de extinção presos
nesses cativeiros, apesar da fiscalização intensa
do Ibama.
"Infelizmente
é uma questão cultural. Os índios já
criavam animais. E hoje as pessoas criam como? Caçando,
traficando, e quanto mais rara a espécie, quanto mais exótica,
mais atrai a cobiça e os caçadores", diz Daniel.
O
biólogo Sávio Bruno destaca que a defesa e a preservação
do meio ambiente não é apenas um direito, mas um
dever de todos, e cita, como exemplo, o artigo 225 da Constituição
Federal: "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à
coletividade o dever de defendê-Io e preservá-lo
para as presentes e futuras gerações".
Fonte:
Gazeta
de Alagoas (30/03/2008)
Fotos: Marcelo
Albuquerque
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