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Progresso
em harmonia com a natureza
Indústria de adubo investe
em mudanças para diminuir potencial poluidor; o meio ambiente
agradece
Um
exemplo simples de que indústria e meio ambiente podem
conviver com o mínimo possível de degradação
está sendo dado na cidade de Santa Luzia do Norte, na região
metropolitana de Maceió. Depois de ser denunciada inúmeras
vezes pela população, a Profertil - indústria
que produz fertilizantes e pertence ao grupo francês Roullier
- iniciou o processo de adequação às exigências
para minimizar as agressões ao meio ambiente.
No
entanto, diretores da indústria e autoridades ambientais
reconhecem que, no processo de produção de fertilizantes,
não se pode zerar a emissão de gases tóxicos
nem o cheiro de adubo que se propaga pelo ar em todo o raio de
alcance da Proferti1.
''A
fábrica que produz café cheira a café. Aquela
que produz biscoito cheira a biscoito. A Profertil produz adubo
e só pode ter este cheiro. O que estamos fazendo é
buscar meios para minimizar a emissão de gases na atmosfera
e reduzir ao máximo o cheiro de fertilizantes", declarou
Guilherme Lyra, diretor-geral da Profertil.

Nos
últimos três anos, a empresa investiu R$ 2 milhões/ano
em ações ambientais, o que inclui educação
ambiental e compra de equipamentos para diminuir o potencial poluente
da indústria. O resu1tado foi a redução dos
valores de emissão de gases, que ficaram abaixo dos limites
estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
Segundo
o Instituto de Meio Ambiente (IMA), hoje a Proferti1 está
funcionando dentro dos padrões de emissão de gases
e implementou ações com o objetivo de reduzir a
agressão ao meio ambiente. O diretor técnico do
IMA, Gustavo Carvalho, disse que as ações da direção
da Proferti1 envolveram grandes investimentos com filtros para
as chaminés, instalação do sistema de circuito
fechado da água, ou seja, sem despejar uma só gota
de ef1uente químico na calha do rio Mundaú ou nas
lagoas que ficam nos arredores da fábrica de fertilizantes
e o acondicionamento do enxofre.
"Posso
assegurar que, de acordo com a última inspeção
feita pelo IMA, a direção da Proferti1 adotou as
medidas exigidas para a redução no potencial poluidor.
Com isso, o IMA emitiu as licenças necessárias para
o funcionamento. Paralelo a isso, estamos fazendo o monitoramento,
principalmente, porque sabemos da problemática que é
a emissão gasosa", disse. .
No
caso da Profertil, além do complexo estuarino Mundaú/Manguaba,
o rio Mundaú que passa nos fundos da indústria -
ainda há os riscos com a população. As queixas
antigas se referiam aos gases emitidos pelas chaminés da
fábrica.
Poluição
do ar, das plantas e das águas
Uma
grande reclamação das comunidades instaladas nos
arredores da fábrica, bem como da população
de Santa Luzia do Norte, se referia ao cheiro forte de enxofre
que tomava conta da atmosfera no período de funcionamento
das máquinas e até mesmo quando elas estavam paradas.
Isso porque toneladas de enxofre "in-natura" eram colocadas
no pátio da indústria, e a "montanha"
amarela podia ser vista a quilômetros.
Uma
água esverdeada, altamente tóxica, também
escorria da montanha de enxofre e se acumulava diretamente nas
pequenas lagoas que ficavam nos arredores. A partir de pequenos
braços, a água poluída era levada direto
para a calha do Mundaú que, em seguida, "canalizava"
a poluição para a lagoa Mundaú e esta, para
a Manguaba. A trilha da poluição ia ficando para
trás com a mortandade de peixes e da fauna.
O
fato levou a Federação dos Pescadores a denunciar,
em 2004, a Profertil ao Ministério Público Federal.
Depois de minuciosa investigação, a denúncia
foi confirmada e o caso ensejou um inquérito na Polícia
Federal e, na seqüência, a responsabilidade penal da
direção da indústria.
Em
março de 2006, a população de Santa Luzia
voltou a denunciar ao MPF a gravidade da situação.
Segundo a denúncia, o cheiro produzido pelo enxofre estava
causando alergias e problemas respiratórios nas pessoas.
Técnicos
do IMA foram ao local e constataram as denúncias da população.
No laudo pericial os técnicos disseram que "não
havia detectores de dióxido de enxofre e faltava ainda
um sistema de monitoramento da concentração de particu1ados".
À
época, peritos da Polícia Federal constataram que
a vegetação próxima estava envolvida por
uma espécie de "nuvem ácida", sinal irrefutáve1
de poluição. A Profertil travava uma grande batalha
porque as denúncias vinham de toda a parte.

Enxofre
não polui mais como antigamente
Hoje, o enxofre é armazenado num galpão coberto
e a "montanha amarela" não fica mais visível
nem emite o cheiro forte. A salmoura que escorria do produto não
é mais direcionada para as pequenas lagoas. A atual direção
da indústria adotou a instalação de filtros
nas chaminés da fábrica. A indústria ainda
implantou o "circuito interno das águas". Toda
a água que é utilizada na fábrica passa por
um processo de decantação e tratamento e volta a
circular.
”A
idéia é não despejar líquido nas águas
do rio e lagoas que ficam próximas à fábrica.
A medida tem dado resultados positivos", disse Guilherme
Lyra. Segundo o diretor-geral da Profertil, uma análise
nas águas do rio Mundau solicitada pela direção
da fábrica, resultou num dado curioso. "As águas
do Mundaú coletadas no trecho que fica antes da fábrica
apresentaram alto índice de contaminação,
enquanto que as águas que foram coletadas depois da fábrica,
no curso para as lagoas, apresentaram contaminação
bem menor".
Gustavo
Carvalho diz não ter conhecimento desta análise,
mas revela que o Mundaú é um potencial poluidor
devido aos dejetos despejados na calha do rio nas cidades por
onde ele "passa". "Não houve um aumento
na poluição quando a água do rio passou pelo
trecho que compreende a indústria. Mais continuou poluído”
comentou o diretor técnico do IMA.

Câmara
municipal debateu as ações
No
ano passado, a Profertil - indústria pertencente ao grupo
Roullier desde 2005 - foi novamente denunciada pela população.
A denúncia era nova, mas as acusações eram
as mesmas: contaminação do ar, rios e lagoas. A
montanha de enxofre era impactante. De longe, ainda da ponte sobre
o rio Mundaú, na BR-316, podia ser ver a "grande pedra
de enxofre".
Após
várias solicitações dos moradores, o vereador
Pedro Soares dos Santos, o "Pedão", convocou
a direção da indústria, o Ministério
Público, representantes de órgãos ambientais
e toda a população para uma audiência pública
na Câmara.
"O
que me frustrou foi a participação da população.
Para denunciar apareceram muitas pessoas, mas para cobrar providências,
o número foi infinitamente menor. Mas a audiência
pública foi providencial. A situação que
temos hoje é reflexo desta audiência. Foi neste encontro
que se definiram as ações da Profertil para minimizar
a degradação do meio ambiente", contou Pedão.
O
vereador disse que, antes desta audiência, o índice
de poluição causada pela Profertil era grande. Ele
contou que recebeu várias pessoas na Câmara e em
sua casa que se diziam doentes com problemas respiratórios
causados pelos gases emitidos pela indústria.
"Depois
desta audiência, posso garantir que houve uma grande redução
de contaminação e isso é comprovado pela
pequena quantidade de pessoas que me procuram hoje para fazer
alguma denúncia contra a Profertil", disse Pedão.
Ele contou ainda que estima que houve uma redução
de 90% no índice de queixas que recebe sobre o funcionamento
da fábrica.
O
vereador conta que a pressão da população
foi decisiva para que a direção da Profertil adotasse
medidas menos poluidoras. “Acredito que se a população
não tivesse se mobilizado, a situação estaria
na mesma", comentou.
“A
Profertil pertence a um grupo que inclui em suas metas de trabalho
a preservação do meio ambiente. A consciência
ambiental é algo muito forte entre as empresas deste grupo",
comentou Guilherme Lyra.

Opiniões
divergem na comunidade
Vizinho
à Profertil fica um pequeno vilarejo chamado Guardiano.
Como toda a periferia da cidade, no povoado moram pessoas humildes
e, em sua maioria, pescadores. Outra boa parte da comunidade masculina
é empregada na indústria. Entre os moradores do
Guardiano, a maioria é formada por idosos e crianças
pequenas.
A
Escola Municipal Professora Aurora Ramos de Lima fica na comunidade
e, há cinco anos, foi invadida por sete famílias
que ficaram desabrigadas na cidade. Hoje, cinco famílias
ainda vivem na escola. O local é insalubre e fica às
margens de um brejo. A fossa está estourada e a fedentina
é forte. A aposentada Maria de Lourdes Batista Barros,
de 60 anos, "nasceu e se criou" no Guardiano e se queixa
de problemas respiratórios. No mesmo local mora Cláudia
Paixão, mãe de quatro filhos e grávida do
quinto. Na escola, ela mora com o marido e o filho, o pequeno
Edvaldo Varley da Silva, de 3 anos. Cláudia Paixão
conta que o filho não tem nem nunca teve problemas respiratórios.
Mais
adiante, bem vizinho à fábrica, mora o pescador
José Adilson de Amorim, 50. Ele conta que também
nasceu e se criou no Guardiano e que trabalhou durante 23 anos
na Profertil. "Mesmo depois de morar todo esse tempo aqui
e de ter trabalhado vinte e três anos na fábrica,
não tenho nenhuma doença respiratória",
comentou José Adilson.
GRUPO
ROULLIER - A indústria Profertil pertence - desde o ano
passado - ao Grupo Roullier - grupo econômico francês
com atuação em 35 países nas áreas
de agropecuária, agroquímica, agroalimentar e tecnologia
marinha. No Brasil, o Grupo Roullier tem indústrias em
Santa Luzia do Norte, Candeias (BA) e Rio Grande (RS). Em Alagoas,
a expectativa de produção anual de fertilizante
em grãos é de 150 mil toneladas.
Fonte:
O Jornal – 30/03/2008
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