....5 de março de 2008
..

......................................................................................................................................................

 

 

 

 

Progresso em harmonia com a natureza

Indústria de adubo investe em mudanças para diminuir potencial poluidor; o meio ambiente agradece

Um exemplo simples de que indústria e meio ambiente podem conviver com o mínimo possível de degradação está sendo dado na cidade de Santa Luzia do Norte, na região metropolitana de Maceió. Depois de ser denunciada inúmeras vezes pela população, a Profertil - indústria que produz fertilizantes e pertence ao grupo francês Roullier - iniciou o processo de adequação às exigências para minimizar as agressões ao meio ambiente.

No entanto, diretores da indústria e autoridades ambientais reconhecem que, no processo de produção de fertilizantes, não se pode zerar a emissão de gases tóxicos nem o cheiro de adubo que se propaga pelo ar em todo o raio de alcance da Proferti1.

''A fábrica que produz café cheira a café. Aquela que produz biscoito cheira a biscoito. A Profertil produz adubo e só pode ter este cheiro. O que estamos fazendo é buscar meios para minimizar a emissão de gases na atmosfera e reduzir ao máximo o cheiro de fertilizantes", declarou Guilherme Lyra, diretor-geral da Profertil.

Nos últimos três anos, a empresa investiu R$ 2 milhões/ano em ações ambientais, o que inclui educação ambiental e compra de equipamentos para diminuir o potencial poluente da indústria. O resu1tado foi a redução dos valores de emissão de gases, que ficaram abaixo dos limites estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

Segundo o Instituto de Meio Ambiente (IMA), hoje a Proferti1 está funcionando dentro dos padrões de emissão de gases e implementou ações com o objetivo de reduzir a agressão ao meio ambiente. O diretor técnico do IMA, Gustavo Carvalho, disse que as ações da direção da Proferti1 envolveram grandes investimentos com filtros para as chaminés, instalação do sistema de circuito fechado da água, ou seja, sem despejar uma só gota de ef1uente químico na calha do rio Mundaú ou nas lagoas que ficam nos arredores da fábrica de fertilizantes e o acondicionamento do enxofre.

"Posso assegurar que, de acordo com a última inspeção feita pelo IMA, a direção da Proferti1 adotou as medidas exigidas para a redução no potencial poluidor. Com isso, o IMA emitiu as licenças necessárias para o funcionamento. Paralelo a isso, estamos fazendo o monitoramento, principalmente, porque sabemos da problemática que é a emissão gasosa", disse. .

No caso da Profertil, além do complexo estuarino Mundaú/Manguaba, o rio Mundaú que passa nos fundos da indústria - ainda há os riscos com a população. As queixas antigas se referiam aos gases emitidos pelas chaminés da fábrica.

Poluição do ar, das plantas e das águas

Uma grande reclamação das comunidades instaladas nos arredores da fábrica, bem como da população de Santa Luzia do Norte, se referia ao cheiro forte de enxofre que tomava conta da atmosfera no período de funcionamento das máquinas e até mesmo quando elas estavam paradas. Isso porque toneladas de enxofre "in-natura" eram colocadas no pátio da indústria, e a "montanha" amarela podia ser vista a quilômetros.

Uma água esverdeada, altamente tóxica, também escorria da montanha de enxofre e se acumulava diretamente nas pequenas lagoas que ficavam nos arredores. A partir de pequenos braços, a água poluída era levada direto para a calha do Mundaú que, em seguida, "canalizava" a poluição para a lagoa Mundaú e esta, para a Manguaba. A trilha da poluição ia ficando para trás com a mortandade de peixes e da fauna.

O fato levou a Federação dos Pescadores a denunciar, em 2004, a Profertil ao Ministério Público Federal. Depois de minuciosa investigação, a denúncia foi confirmada e o caso ensejou um inquérito na Polícia Federal e, na seqüência, a responsabilidade penal da direção da indústria.

Em março de 2006, a população de Santa Luzia voltou a denunciar ao MPF a gravidade da situação. Segundo a denúncia, o cheiro produzido pelo enxofre estava causando alergias e problemas respiratórios nas pessoas.

Técnicos do IMA foram ao local e constataram as denúncias da população. No laudo pericial os técnicos disseram que "não havia detectores de dióxido de enxofre e faltava ainda um sistema de monitoramento da concentração de particu1ados".

À época, peritos da Polícia Federal constataram que a vegetação próxima estava envolvida por uma espécie de "nuvem ácida", sinal irrefutáve1 de poluição. A Profertil travava uma grande batalha porque as denúncias vinham de toda a parte.

Enxofre não polui mais como antigamente

Hoje, o enxofre é armazenado num galpão coberto e a "montanha amarela" não fica mais visível nem emite o cheiro forte. A salmoura que escorria do produto não é mais direcionada para as pequenas lagoas. A atual direção da indústria adotou a instalação de filtros nas chaminés da fábrica. A indústria ainda implantou o "circuito interno das águas". Toda a água que é utilizada na fábrica passa por um processo de decantação e tratamento e volta a circular.

”A idéia é não despejar líquido nas águas do rio e lagoas que ficam próximas à fábrica. A medida tem dado resultados positivos", disse Guilherme Lyra. Segundo o diretor-geral da Profertil, uma análise nas águas do rio Mundau solicitada pela direção da fábrica, resultou num dado curioso. "As águas do Mundaú coletadas no trecho que fica antes da fábrica apresentaram alto índice de contaminação, enquanto que as águas que foram coletadas depois da fábrica, no curso para as lagoas, apresentaram contaminação bem menor".

Gustavo Carvalho diz não ter conhecimento desta análise, mas revela que o Mundaú é um potencial poluidor devido aos dejetos despejados na calha do rio nas cidades por onde ele "passa". "Não houve um aumento na poluição quando a água do rio passou pelo trecho que compreende a indústria. Mais continuou poluído” comentou o diretor técnico do IMA.

Câmara municipal debateu as ações

No ano passado, a Profertil - indústria pertencente ao grupo Roullier desde 2005 - foi novamente denunciada pela população. A denúncia era nova, mas as acusações eram as mesmas: contaminação do ar, rios e lagoas. A montanha de enxofre era impactante. De longe, ainda da ponte sobre o rio Mundaú, na BR-316, podia ser ver a "grande pedra de enxofre".

Após várias solicitações dos moradores, o vereador Pedro Soares dos Santos, o "Pedão", convocou a direção da indústria, o Ministério Público, representantes de órgãos ambientais e toda a população para uma audiência pública na Câmara.

"O que me frustrou foi a participação da população. Para denunciar apareceram muitas pessoas, mas para cobrar providências, o número foi infinitamente menor. Mas a audiência pública foi providencial. A situação que temos hoje é reflexo desta audiência. Foi neste encontro que se definiram as ações da Profertil para minimizar a degradação do meio ambiente", contou Pedão.

O vereador disse que, antes desta audiência, o índice de poluição causada pela Profertil era grande. Ele contou que recebeu várias pessoas na Câmara e em sua casa que se diziam doentes com problemas respiratórios causados pelos gases emitidos pela indústria.

"Depois desta audiência, posso garantir que houve uma grande redução de contaminação e isso é comprovado pela pequena quantidade de pessoas que me procuram hoje para fazer alguma denúncia contra a Profertil", disse Pedão. Ele contou ainda que estima que houve uma redução de 90% no índice de queixas que recebe sobre o funcionamento da fábrica.

O vereador conta que a pressão da população foi decisiva para que a direção da Profertil adotasse medidas menos poluidoras. “Acredito que se a população não tivesse se mobilizado, a situação estaria na mesma", comentou.

“A Profertil pertence a um grupo que inclui em suas metas de trabalho a preservação do meio ambiente. A consciência ambiental é algo muito forte entre as empresas deste grupo", comentou Guilherme Lyra.

Opiniões divergem na comunidade

Vizinho à Profertil fica um pequeno vilarejo chamado Guardiano. Como toda a periferia da cidade, no povoado moram pessoas humildes e, em sua maioria, pescadores. Outra boa parte da comunidade masculina é empregada na indústria. Entre os moradores do Guardiano, a maioria é formada por idosos e crianças pequenas.

A Escola Municipal Professora Aurora Ramos de Lima fica na comunidade e, há cinco anos, foi invadida por sete famílias que ficaram desabrigadas na cidade. Hoje, cinco famílias ainda vivem na escola. O local é insalubre e fica às margens de um brejo. A fossa está estourada e a fedentina é forte. A aposentada Maria de Lourdes Batista Barros, de 60 anos, "nasceu e se criou" no Guardiano e se queixa de problemas respiratórios. No mesmo local mora Cláudia Paixão, mãe de quatro filhos e grávida do quinto. Na escola, ela mora com o marido e o filho, o pequeno Edvaldo Varley da Silva, de 3 anos. Cláudia Paixão conta que o filho não tem nem nunca teve problemas respiratórios.

Mais adiante, bem vizinho à fábrica, mora o pescador José Adilson de Amorim, 50. Ele conta que também nasceu e se criou no Guardiano e que trabalhou durante 23 anos na Profertil. "Mesmo depois de morar todo esse tempo aqui e de ter trabalhado vinte e três anos na fábrica, não tenho nenhuma doença respiratória", comentou José Adilson.

GRUPO ROULLIER - A indústria Profertil pertence - desde o ano passado - ao Grupo Roullier - grupo econômico francês com atuação em 35 países nas áreas de agropecuária, agroquímica, agroalimentar e tecnologia marinha. No Brasil, o Grupo Roullier tem indústrias em Santa Luzia do Norte, Candeias (BA) e Rio Grande (RS). Em Alagoas, a expectativa de produção anual de fertilizante em grãos é de 150 mil toneladas.

Fonte: O Jornal – 30/03/2008