| Economia
verde que venceu a exclusão
Cultivo ecologicamente correto de
pimentas gera renda em comunidade isolada e vira investimento
na vitrine da Bovespa
Milena Andrade
Repórter
Uma
agricultura sustentável, que utiliza os recursos naturais
sem desperdício, preserva a natureza e que, além
disso tudo, gera renda e inclusão social para uma comunidade
ignorada pelas políticas públicas. Em Alagoas, esse
belo exemplo - que despertou o interesse da Bolsa de Valores do
Estado de São Paulo (Bovespa) - vem do lugar mais improvável.
Essa rara demonstração de como produzir com responsabilidade
ambiental vem da comunidade do sítio Baixas na zona rural
do município de São José da Tapera, cidade
nacionalmente conhecida por estar no topo do ranking de pior Índice
de Desenvolvimento Humano do país durante muito tempo.
Em
pleno Semi-Árido nordestino, onde a redundância da
exclusão é visível na ausência de estrada,
de atuação da estatal de saneamento e abastecimento
de água e da recentíssima chegada (há três
meses apenas) da energia elétrica, um projeto de micro-sistemas
de irrigação para cultivo de produtos de alto valor
agregado conseguiu, em pouco mais de três anos, dar independência
financeira a 36 famílias que estavam abaixo da linha da
pobreza. Por meio do uso de energia renovável, de tecnologias
adequadas às adversidades climáticas da região
e considerando a extrema falta de infra-estrutura básica
da comunidade, o programa H2SOL, da Organização
Não-Governamental Eco-Engenho, implementou no sítio
o plantio de pimentas em canteiros hidropônicos. A hidroponia
surgiu como alternativa pela escassez de água, pois seu
sistema permite a recirculação do líquido,
que é direcionado para as raízes das plantas, e
a potencialização de seu uso.
O
sol, até então visto como o grande inimigo da comunidade
pelo excesso de luz e calor, se transformou no maior aliado dos
moradores de Baixas. A energia que alimenta as bombas d’água
dos canteiros é proveniente de módulos de energia
solar fotovoltaica. O sol também é o gerador da
energia que abastece o galpão onde a pimenta é beneficiada.
A mensagem implícita nessas escolhas é a de ensinar
a conviver com as adversidades e, se possível, transformá-las
em ferramentas de desenvolvimento. “Se eu não tenho
água, não preciso me desesperar. É essa a
mudança de paradigma do ponto de vista de produção
no Semi-Árido que precisa ocorrer na cabeça das
pessoas”, afirma o presidente do Eco-Engenho, José
Roberto Fonseca.
O processo de beneficiamento é totalmente artesanal, sem
o uso de conservantes artificiais, e tem como premissa o aproveitamento
de toda a pimenta produzida. Uma parte é transformada em
conserva, onde o produto é imerso em vinagre de álcool
e sal, e as pimentas que não servem para o vinagrete são
desidratadas em secadores termo-solares para a produção
de condimentos.
A forma de escoamento dessa produção é o
comércio justo e solidário. A idéia é
dar oportunidade de incluir o pequeno agricultor na rede de consumo
sem exploração de sua atividade. A segunda parte
do projeto H2SOL, batizada de Articulação do Mercado
Solidário (AMercSOL), começou a ser colocada em
prática e já possibilita a venda dos produtos da
comunidade de Baixas em todo o Estado de Alagoas.
É esse o laço que amarra essa iniciativa de sucesso
e que resultou num produto de alto valor agregado que traz embutido
a visão de inclusão social e responsabilidade ambiental.

Água
e Sol: a solução estava ali o tempo todo
A história do cultivo de pimentas no sítio de Baixas
é a concretização de como gerar grandes mudanças
com pouco. Quando o pessoal do Instituto Eco-Engenho esteve lá
pela primeira vez a comunidade não tinha absolutamente
nada. A água disponível num poço com a bomba
queimada era salobra; energia elétrica era um sonho inatingível
e a baixíssima renda vinha da fabricação
de vassouras de palha de ouricuri.
O lugar era tão miserável que sequer conseguiu passar
na seleção para um projeto de instalação
residencial de energia solar fotovoltaica em comunidades isoladas.
A renda era calculada pelas aposentadorias e, em Baixas, apenas
um morador possuía o benefício.
O presidente do instituto, José Roberto Fonseca, diz que
o grande dilema que aquela localidade impunha era: como fazer
um projeto de agricultura em condições tão
adversas? E como unir nesse cenário os conceitos de projetos
produtivos, manejo de recursos ambientais com responsabilidade
e mercado solidário?
A solução foi usar os únicos elementos que
a natureza oferecia àquelas pessoas: muito sol e pouca
água.
O modelo viável foi o de micro-sistemas produtivos em canteiros
hidropônicos de 165 metros quadrados, irrigados por gotejamento
e alimentados por energia solar fotovoltaica. Um dessalinizador
termo-solar foi instalado para tirar o sal da água e duas
pequenas adutoras captam a água de dois nascedouros nas
serras próximas ao povoado. Até então, os
moradores peregrinavam 1,2 mil metros morro acima para matar a
sede.
“Tínhamos que potencializar o que havia ali com uma
proposta mais viável e menos impactante no uso da água
e dos recursos naturais. O conceito de micro-sistemas é
perfeito porque você não precisa desmatar a caatinga
para plantar. Um canteiro hidropônico cabe em qualquer quintal,
não é preciso de imensas tarefas para se fazer o
cultivo”, conta José Roberto.
O volume diário de água utilizado é de apenas
200 litros, que são o suficiente para fazer florescer as
672 pimenteiras que crescem no lugar. “Não se faz
nenhum projeto de agricultura orgânica com essa quantidade
de água. O plantio convencional, por exemplo, consumiria
dez vezes mais para essa mesma quantidade de canteiros”,
observa José Roberto.
Os benefícios do sistema podem ser vistos lá nos
canteiros de pimenta. Não há sinal de qualquer tipo
de praga ou doença nas plantas, que se mostram bem saudáveis
no ambiente controlado. Segundo o gerente da Associação
dos Pequenos Produtores Rurais e Agroindustriais de Baixas, Marcelo
Rodrigues, o controle biológico é feito com defensivos
naturais, como o nim, chás e caldas.
Para combater os insetos, por exemplo, foram plantados girassóis
na frente dos canteiros. “Entre as flores e as pimenteiras
os insetos escolhem as flores. Com isso, a gente afasta essas
pragas da plantação”, conta.
Nesse cenário de produção, a ONG introduziu
tecnologias simples, baratas e adequadas às adversidades
climáticas. Com o apoio da Fundação Fiorello
La Guardia e da United State Agency for International Development
(USAID), foram instalados um biodigestor para aproveitar o esterco
do gado na produção de biogás e biofertilizante;
uma cisterna com capacidade de vinte mil litros para coleta de
água da chuva; um painel fotovoltaico para suprir a energia
elétrica da unidade de beneficiamento da pimenta, um fogão
solar parabólico e onze fogões eficientes para reduzir
o uso de lenha.
Mudança de paradigma
Quem ouve o presidente da Eco-Engenho contar a história
pensa que foi fácil, mas, após conseguir os apoios
financeiros necessários, nem tudo correu tão bem.
Ele conta que não bastava trazer tecnologias e soluções
ambientalmente corretas, mas era preciso capacitar, treinar a
comunidade e mudar a forma de pensar de seus moradores. “Não
bastava só dominar a técnica, mas mudar o parâmetro,
a consciência ambiental. E isso foi feito. Esses valores
hoje são tão naturais para essas pessoas que elas
nem percebem que estão dando um raro exemplo de economia
sustentável. Enquanto isso, seus vizinhos continuam desmatando
para criar cabra”, diz José Roberto.
Hoje, depois do projeto implantado, os moradores de Baixas continuam
cultivando suas lavouras de feijão e milho só que
com uma diferença – a produção é
apenas para o próprio consumo, o que significa a redução
do impacto ambiental com o desmatamento que esse tipo de cultivo
gera.
Um dos atestados dessa mudança de paradigma por parte dos
beneficiados desse projeto é que, hoje, as mulheres que
ainda fabricam as vassouras com palha de ouricuri estão
buscando uma forma de tirar menos da natureza.
Dona Maria José Agripina lembra que até pouco tempo
antes da implantação do projeto das pimentas a palha
de ouricuri, que antes era abundante na serra, já estava
bem difícil de encontrar. “De tanto que a gente tirava
tava acabando”, lembra a agricultora, que “lucrava”
R$ 12 por cem vassouras.
Mesmo tendo a renda provenientes das conservas de pimenta –
que pode render até dois salários mínimos
por família -, a comunidade não abandonou as vassouras.
Mas agora elas querem fazer diferente. Para reduzir o impacto
da retirada de palha, as artesãs estão desenvolvendo
uma técnica para fabricá-las em miniatura e comercializá-las
como bibelôs nas feiras de artesanato.
“A meta é tirar menos do meio ambiente e agregar
valor ao produto. Cada vassourinha de enfeite dessas vai acabar
rendendo o mesmo que uma grande só que com muito menos
impacto”, afirma o gerente da associação,
Marcelo Rodrigues.
Projeto
vira investimento na Bolsa de Valores
No final do ano passado, um correspondente da revista Newsweek
esteve na comunidade de Baixas para produzir uma reportagem sobre
o projeto H2SOL, que foi classificado na matéria como uma
verdadeira revolução no Semi-Árido brasileiro.
Pouco tempo depois, o Instituto Eco-Engenho foi procurado pelo
criador da Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVS&A) da
Bovespa, Celso Grecco, que leu a revista e achou que o projeto
poderia virar um produto.
Um relatório sobre o projeto foi enviado para análise
e teve uma pré-aprovação. Na última
quarta-feira, uma equipe de técnicos da Bolsa de Valores
de São Paulo visitou o sítio de Baixas para conhecer
a iniciativa de perto e colocá-la na vitrine virtual da
BVS&A, que é um programa pioneiro de responsabilidade
social e corporativa da Bovespa e de suas corretoras de valores.
A idéia é captar recursos financeiros para projetos
de ONGs brasileiras voltados ao meio ambiente e à educaçãoe
ajudar na difusão e promoção de conceitos
importantes, como a responsabilidade socioambiental e a sustentabilidade
empresarial.
Nesse cenário, a filosofia do projeto H2SOL e do AMercSol
do povoado alagoano tornou-se mais do que uma boa iniciativa ela
virou commodity. Para o presidente da ONG, José Roberto
Fonseca, os potinhos de conserva da Tapera vendem mais do que
uma boa pimenta, vendem e difundem um conceito de economia sustentável
preocupada com o ser humano e com os recursos naturais. “Quem
compra o produto se sente engajado com estes conceitos. É
essa a visão de mercado solidário, uma produção
que está dentro de uma lógica de inclusão
social e responsabilidade ambiental”, acredita.
Para ele, foi isso o que atraiu a Bovespa
Este será o primeiro projeto do Estado de Alagoas a entrar
para a vitrine virtual de investimentos da BVS&A. É
a segunda iniciativa ambiental da região Nordeste, que
já colocou na lista de projetos da bolsa o Espaço
Conviver, da Paraíba, que também se dirige às
comunidades rurais.
COMO FUNCIONA – Qualquer pessoa, seja jurídica ou
física, pode adquirir ações de um dos projetos
listados na BVS&A e se tornar um investidor sócio-ambiental.
A Bovespa coordena todo o processo e repassa integralmente o valor
das cotas às ONGs responsáveis pelos projetos.
A aplicação do investimento pode ser acompanhada
por meio do site, que atualiza todos os passos dos projetos. Os
lucros aqui são sócio-ambientais com o fortalecimento
das organizações que desenvolvem essas iniciativas
e a expansão das ações em busca da redução
das desigualdades e de um planeta mais equilibrado.
O valor da cota inicial proposta pela Bolsa de Valores Sócio-Ambientais
da Bovespa ao projeto de agricultura sustentável no Sertão
alagoano é de R$ 140 mil.
Uma saída produtiva para o bioma da caatinga?
O autor do projeto H2SOL é um defensor árduo da
criação de micro-sistemas semelhantes ao de São
José da Tapera nas comunidades isoladas do Semi-Árido
nordestino. Para José Roberto, a iniciativa é ideal
para ser replicada na caatinga, que sofre intensamente com as
queimadas para agricultura de subsistência e pecuária
e desmatamento para produção de carvão e
lenha.
“A idéia de micro-sistemas produtivos e diversificados
já traz em si uma lógica bem menos perversa, ambientalmente
e socialmente falando, do que as grandes monoculturas que devastaram
praticamente toda a Zona da Mata do Nordeste e que agora também
ameaça o Semi-Árido com os programas do biodiesel
a partir da mamona”, defende.
Ao gerar renda em pequenos espaços com o mínimo
de impacto ambiental seria a forma que ele considera “ideal”
para mudar o cenário de pobreza de algumas comunidades
nordestinas. “Após a implantação do
projeto em Baixas, já tem muita gente fazendo o caminho
inverso e saindo da condição de miséria nas
cidades para viver de forma sustentável e digna na sua
terra natal”, diz José Roberto.
Com a consolidação do projeto das pimentas, o Instituto
Eco-Engenho já começou a trabalhar numa iniciativa
semelhante, com a mesma orientação, na comunidade
de Traíras, localizada às margens do São
Francisco, onde muita gente sofre com a falta de água porque
não tem como captar as águas do rio.
“Queremos mostrar que o H2SOL é um programa viável,
que pode produzir alimentos orgânicos de alto valor agregado
sem agredir o meio ambiente”, diz José Roberto, que
estuda uma forma de introduzir o cultivo de alcaparras e aspargos
em localidades isoladas do sertão alagoano.
“A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)
tem uma análise sobre essas culturas na caatinga. Vamos
atrás disso. Vão me chamar de louco, mas também
fomos criticados quando começamos com as pimentas e o resultado
hoje está aí – o programa tirou da exclusão
a pior comunidade do Nordeste do Brasil, em termos de pobreza
e ausência do poder público, com uma ação
altamente simples”, defende.
As críticas as quais se refere se dirigiram principalmente
ao tipo de cultura que a ONG escolheu para implantar em Baixas,
as pimentas. “As pessoas queriam que fizéssemos uma
horta comunitária, mas nós queríamos algo
que desse rentabilidade para a comunidade e não simplesmente
a mesma cultura de subsistência, que não tem valor
agregado no mercado”, conta José Roberto.
MERCADO – É a esse valor agregado
das pimentas que o presidente do Eco-Engenho atribui o imenso
sucesso dos produtos de Tapera, que hoje são comercializados
em mais de quarenta pontos na capital e interior do Estado. “Não
temos a intenção de exportar, nem de vender para
grandes redes. A idéia é fazer com que essas pessoas
se tornem auto-sustentáveis sem agredir o meio em que vivem”,
explica.
As pimentas produzidas pelos agricultores de Baixas foi muitíssimo
bem aceita pelo consumidor alagoano e é encontrada em lugares
como restaurantes de luxo de Maceió, hotéis e até
em boutiques. “As pessoas gostam de mostrar que se preocupam
com a pobreza e com o meio ambiente”, diz José Roberto.
A produção mensal atual é de oitenta quilos
por canteiro, o que totaliza 480 quilos de pimenta por mês.
Em quatro meses, a associação vendeu R$ 28 mil em
conservas. A expectativa da ONG é que, quando a produção
atingir seu apogeu, cada canteiro gere uma renda mensal de R$
900 para cada família.
Fonte:
O
Jornal (30/03/2008)
Fotos:
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