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O
LIXO NOSSO DE CADA DIA
Resíduos
sólidos: problema inadiável
Sem
recursos e orientação adequada, municípios
alagoanos jogam o problema para “debaixo do tapete”
Carolina
Sanches e Waldson Costa
Repórteres
O
destino dos resíduos sólidos descartados dia-a-dia
pela população dos municípios alagoanos,
as conseqüências da má gestão e do manejo
inadequado da montanha de lixo, assim como as alternativas para
amenizar os impactos ambiental e social gerados pelo problema,
que é inerente à condição da vida
humana, serão temas discutidos a partir desta edição
pela equipe das sucursais de O JORNAL na série de reportagem
"0 lixo nosso de cada dia". Nesta primeira reportagem
estaremos contextualizando a realidade dos lixões de algumas
cidades do interior do Estado, as condições e dificu1dades
de coleta, o manejo e a destinação do lixo pelas
instituições públicas municipais. Na seqüência,
expondo um quadro social, abordaremos as conseqüências
do lixo na vida e na saúde das comunidades e das pessoas
que convivem lado a lado, diretamente, com o descarte da população.
Na terceira e última reportagem, exemplos de condutas de
empresas, ONGs, comunidades e instituições que encontraram
na reciclagem e na seleção do lixo uma forma rentável
com técnicas simples e baratas de ajudar o meio ambiente
e garantir renda extra. Veja a seguir:

O
sinal de alerta já ecoou há tempos, mas, até
o momento, parece não ter despertado a atenção
da população e dos responsáveis pela gestão
e pela destinação do lixo doméstico que é
produzido nas cidades. Os depósitos de lixos de parte dos
municípios alagoanos estão prestes a explodir. Entre
a montanha de entulhos de descartes domésticos faltam leis
consistentes, recursos e alternativas eficientes para lidar com
o inadiável problema e sobram prejuízos ambientais
e sociais, que culminam na saúde pública.
Com poucos recursos para investir na coleta, no processo de manejo
e no armazenamento do lixo doméstico, os municípios
alagoanos empurram o problema “para debaixo do tapete”
na tentativa de adiar as conseqüências do abarrotamento
de lixo, que ganha cada dia mais espaço nas áreas
que servem de depósito. Para se ter uma idéia, muitos
municípios não têm, sequer, controle da produção
diária de lixo que é destinada aos depósitos.
Sem dados concretos sobre o lixo, a questão, em muitos
casos, se restringe a uma leve abordagem no Plano Diretor das
cidades de uma forma tão superficial que dificilmente as
idéias sairão do papel para a prática.
Só entre os municípios litorâneos de Maragogi
e Japaratinga há uma estimativa que oito caminhões,
ou mais, despejem diariamente resíduos nas crateras dos
lixões a céu aberto, isso, com as projeções
que levam em conta os dados da população, mas que
não incluem a quantidade exata de lixo produzido na alta
temporada nem nas empresas hoteleiras de grande porte da região.
Situação que não é diferente em municípios
distintos, como Porto Calvo, Matriz do Camaragibe, São
Luís do Quitunde, Major Isidoro, Olho d' Agua das Flores,
Arapiraca e Maribondo.
Sem a atenção devida, o lixo produzido pela população
é destinado, de forma aleatória, aos terrenos baldios,
ameaçando tanto o meio ambiente quanto a saúde pública
e a qualidade de vida da população. A tendência
natural, caso perdure o cenário de ausência de políticas
públicas e investimentos adequados, é de o quadro
se agravar. Dados do IBGE mostram que, enquanto a população
cresceu 15%, a coleta de resíduos urbanos evoluiu 490%

CUSTOS
Processar
os resíduos sólidos - domésticos, industriais
e hospitalares - de forma adequada custa caro e exige técnica
e equipamentos de apoio específicos, que, na realidade,
não cabe no orçamento das Prefeituras Municipais.
Dessa forma, parte da coleta e do transporte do lixo, nos municípios
alagoanos, é feita de forma amadora em carrocerias abertas
e sem nenhum cuidado específico e os depósitos são
a céu aberto em pontos da zona rural sem nenhuma divisão
isolante que impeça a entrada de animais domésticos
ou pessoas. Fato que favorece a contaminação de
pessoas e animais, do lençol freático, dos rios
e das áreas verdes.
Sozinhos,
os municípios não têm como resolver o problema
Por
mais ações e estratégias que sejam adotadas
para tentar resolver o problema do lixo, a realidade é
que, sozinhos, os municípios não têm como
pagar a conta dos procedimentos técnicos nem equipar o
sistema de limpeza e o destino final do lixo. "Por mais que
se faça, tudo nos parece paliativo". Esta é
a resposta do prefeito do município de Major Izidoro, José
Pedro Vieira da Costa, que tem em sua gestão municipal
o lixo como maior agravante para o desenvolvimento da cidade.
Além de um lixão abarrotado e de um sistema de coleta
inadequado, ao lado do depósito há uma comunidade
que vive paralelamente a miséria do lixo. Segundo o prefeito,
há tempos se busca resolver o problema do lixo na região,
mas as soluções encontradas pelo município
sempre são paliativas. "Sei que a única solução
para esse problema seria a construção de um aterro
sanitário, mas essa proposta só será concretizada
a longo prazo. Enquanto isso, que ação podemos adotar?",
questiona ao vivenciar no presente a falta de planejamento que
só agora, a partir da exigência do Plano Diretor,
passou a ser adotada pelas cidades brasileiras.
Preocupado com a atual realidade do lixão do município,
ele informou que só a construção de um aterro
sanitário, acoplada a uma série de procedimentos,
pode modificar a situação da cidade. "Já
sabemos que qualquer ação isolada não tem
como surtir efeito, portanto, a nossa única saída
é elaborar com outros municípios, através
dos consórcios impulsionados pelos governos federal e estadual,
um plano regional para a gestão de resíduos sólidos,
que inclui a construção do aterro e condutas corretas",
diz José Pedro Vieira.

POLUIÇÃO
Sem
local adequado para levar o lixo, moradores de cidades ribeirinhas
utilizam as margens do rio como depósito dos dejetos. No
povoado Capelinha, em Major Isidoro, apesar de trabalhadores da
prefeitura realizarem a limpeza das ruas da cidade, não
existe aterro sanitário no local, e o lixo é depositado
às margens do rio.
Dessa forma, o depósito de lixo não atinge apenas
a saúde do rio e da população local, mas,
segundo especialistas, parte do bioma da região, fato que
encarece as políticas de saúde e influencia nos
resultados de doenças que já poderiam ter sido eliminadas.
Para se ter uma idéia dos custos do manejo correto do lixo,
a construção de um aterro para uma cidade de 50
mil habitantes custa quase o mesmo que uma unidade para 150 mil.
Como 85% dos municípios têm abaixo de 15 mil moradores
e até menos que isso, sai muito caro para uma prefeitura
arcar sozinha com um projeto desse porte. Assim, a saída,
como já foi citado, é a criação de
consórcios que reúnam cidades vizinhas para compartilhar
da mesma estrutura de aterros e tratamento.
Produção
maior é durante alta estação
A
quantidade de lixo recolhido pelas cidades litorâneas de
Maragogi e Japaratinga é relativa diante da periodicidade
do ano. No inverno, com as cidades ocupadas apenas pelos moradores,
a quantidade e o tipo de lixo produzido nem se comparam com o
período de alta estação, quando a cidade
é ocupada por veranistas e turistas.
É no verão que o trabalho de limpeza pública
é redobrado e, segundo o secretário de Obras de
Japaratinga, Eraldo da Rocha Costa, é a época em
que é adotada uma coleta diferenciada. "Como a população
local e veranista não colabora para manter a cidade limpa,
temos que realizar plantões e aumentar o efetivo da limpeza",
diz, reconhecendo as deficiências da coleta e da destinação
do lixo e enfatizando que não há como fazer diferente
diante dos atuais custos para o procedimento e do reduzido quadro
de servidores.
Já para os catadores de lixo que trabalham nos lixões
a céu aberto das duas cidades, é notável
a diferença no volume de lixo e no tipo de material que
chega até o depósito final. "No verão,
a quantidade de lixo e de caminhões é bem maior,
assim como o nosso lucro. Nesse período, também
aparece uma maior quantidade de materiais diferenciados, que têm
maior valor", afirma o catador de lixo José Aládes,
que, durante o Carnaval, sai do lixão para recolher latas
de alumínio nos focos de folia. "Tem que ir na cidade
buscar. Como o alumínio tem mais valor, se esperar, as
latinhas nem chegam aqui", revela.
Se os alumínios das latas de bebidas não chegam
ao lixão, o mesmo não se pode dizer dos outros resíduos
domésticos. Nas áreas onde estão os lixões
de Maragogi, Japaratinga, Porto Calvo e Matriz do Camaragibe,
a quantidade de dejetos é incalculável. "Há
tanto entulho que é impossível vasculhar tudo. Todo
dia chega mais lixo e, para reduzir o volume, tocamos fogo, mesmo
sabendo que perdemos parte dos materiais", diz a catadora
Maria Cícera de Souza, que trabalha no lixão de
Japaratinga há mais de oito anos. "Lembro da época
em que a cidade era menor e que o lixão ficava do outro
lado; agora, os entulhos são jogados aqui e depois lançados
na cratera para limpar a área", descreve Maria Cícera.

Comunidade
exige retirada do lixão
Moradores
da comunidade Gameleira, em Olho d'Água das Flores, cobram
há oito anos a retirada do lixão. O lixo produzido
em uma semana pelos moradores corresponde a 20 toneladas em uma
cidade com 16 mil habitantes. A coleta é realizada seis
vezes por semana através de uma empresa terceirizada, que
disponibiliza seis caminhões.
O dejeto recolhido é depositado em área de 50 tarefas
ao lado do povoado. A proximidade do lixão com as residências
tem sido alvo de reclamações desde que o lixão
foi transferido para a região, há oito anos. Aproximadamente,
cem famílias remanescentes de quilombo - reconhecimento
ainda em fase de tramitação burocrática -
são prejudicadas pela localização do lixão.
As casas ficam a menos de 200 metros do depósito, o que
apresenta um risco ainda maior. "Quando chove, todo o lixo
é arrastado para o povoado, sem contar com os insetos,
a fumaça e o mau cheiro, que tomam conta do local",
ressalta o presidente da associação dos moradores
do povoado, Emílio Bezerra da Silva.
As reclamações dos moradores provocaram um impasse
com o Ministério Público, que cobra da prefeitura
uma destinação adequada. No mês de dezembro,
após um protesto realizado pelos moradores do povoado,
o promotor Luiz Tenório Oliveira cobrou da prefeitura da
cidade providências imediatas no sentido de disciplinar
e oranizar o lixão.
O tema foi discutido em uma audiência pública que
contou com a presença de representantes do Ministério
da Integração e da Secretaria do Meio Ambiente e
dos Recursos Hídricos de Alagoas (Semarh), de autoridades
políticas e de moradores do povoado. Durante a audiência,
a prefeitura apresentou a proposta da implantação
de um aterro sanitário no local, com recursos do consórcio,
através da Semarh, que está avançando na
consolidação de uma política de implantação
de aterros nos municípios alagoanos. Ainda durante a audiência
foram acertadas algumas medidas paliativas, como o isolamento
da área com cerca, a cobertura de lona para os caminhões
e a revirada do lixo para evitar o acúmulo de moscas.
Com
relação ao aterro sanitário, o prefeito Carlos
André dos Anjos "Nen" (PPS) explica que, desde
2005, está sendo elaborado um projeto, o qual todos os
aspectos legais e ambientais foram avaliados. "A 1ª
etapa desse projeto é achar uma solução adequada
para o lixo, que hoje é despejado a céu aberto,
contaminando e poluindo o meio ambiente. A partir daí iremos
buscar a possibilidade de trabalhar a coleta seletiva nas cidades",
afirmou.

MOBILIZAÇÃO
Na última terça-feira (12), uma comissão
composta por representantes do poder público e moradores
do povoado Gameleira esteve na cidade de João Pessoa, na
Paraíba, para conhecer o aterro sanitário, implantado
há cinco anos. A visita teve como objetivo a coleta de
informações em relação ao sistema
de tratamento de lixo do município, que vem sendo apontado
como exemplo de sucesso na implantação da técnica.
Projeto
implantado aterro relevado
Um
projeto de aterro sanitário utilizando tecnologia de tratamento
biológico e físico-químico foi implantado
há cinco anos, na Serra da Mangabeira, em Arapiraca; entretanto,
não seguiu as suas nuances. O local possui toda a estrutura
necessária para um aterro, com célula fechada, filtro
de gás e estações de tratamento do chorume,
mas não é considerado um aterro sanitário
por causa do galpão de triagem, que não esta funcionando.
De acordo com o secretário de Meio Ambiente de Arapiraca,
Luiz Ricardo Vieira, apesar de o galpão não estar
funcionando, já é feita a separação
do lixo por mais de 200 catadores que trabalham no local. "Estamos
preparando o projeto para concluir o galpão e isolar o
local onde é colocado o lixo", explica.
Consórcios surgem como alternativa
Dos
102 municípios alagoanos, incluindo a capital, Maceió,
nenhum deles possui as condições corretas de coleta
e destinação dos resíduos sólidos.
Diante dessa realidade, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente
e dos Recursos Hídricos vem projetando um diagnóstico
da situação dos municípios para inseri-los
e contemplá-los no Plano Estadual de Regionalização
de Gestão de Resíduos Sólidos.
Segundo a gerente de Planejamento em Saneamento da secretaria,
a economista Elaine Patrícia Melo, o problema da má
gestão do lixo envolve uma série de fatores, que
comprometem desde os números da saúde pública
até a economia em geral. Apesar de o lixo ser um problema
inadiável, as suas conseqüências e soluções
vieram à tona recentemente, portanto, antes de colocar
o plano de regionalização para a gestão dos
resíduos sólidos em prática, será
necessária uma série de passos e estudos",
disse.
"Por mais simples que se pareça, as soluções
são complexas e isoladas. Afinal, cada município
tem a sua particularidade, e isso precisa ser considerado no projeto,
que envolve a formação do aterro e a logística
para a condução e a destinação do
lixo. Não há como captar recursos para fazer um
aterro numa região onde os municípios produzem uma
quantidade bem inferior da capacidade do aterro e vice versa;
portanto, acredito que os consórcios entre os municípios,
o Estado e até o público-privado são as saídas,
mas, para isso, é preciso um dossiê da realidade
com dados concretos", expôs a gerente Elaine Melo,
enfatizando que os fóruns para discutir a questão
já foram iniciados em Alagoas.
A
sobrevivência garimpada no lixo
Fincados nas montanhas de detritos,
seres humanos disputam com animais o “pão”
de cada dia
A
realidade é subumana. A cena, comum de encontrar em qualquer
depósito de lixo do Estado. Na luta pela sobrevivência,
homens, mulheres, idosos e até crianças, que vivem
fincados no lixo garimpando entulhos - sem nenhuma proteção
- em busca do sustento diário; de comida e até de
dias melhores; parece que são inerentes e, ao mesmo tempo,
imunes à montanha de detritos, à fumaça e
ao gás tóxico produzido pela incineração
dos resíduos, aos insetos e a toda contaminação
que possa conter nos lixões.

A cada descarga de lixo dos caminhões que chegam das cidades,
as expectativas dos catadores são renovadas. Na ânsia
de conferir o que foi descartado pela população,
eles ajudam a descarregar os veículos no momento que já
pré-selecionam o que desejam e o que possa ser útil
para venda, para o uso e o consumo próprio. De forma rápida
e precisa, revirando a montanha de entulhos com as mãos
e "ciscadores", mas sem nenhuma proteção
ou cuidado, eles garimpam o lixo separando papelão, plástico,
metal, garrafas peti, alumínio e até mesmo roupas,
objetos e comida.
Entre
os catadores de lixo estão homens, idosos, jovens, mulheres
grávidas e até mesmo crianças (menores de
5 e 7 anos, que, segundo os país e avós, não
trabalham no local, mas, sim, acompanham os adultos até
o lixão). "Eles apenas vêm conosco e ficam brincando.
Não temos como deixá-los em casa sozinhos",
explica um dos catadores.
Com muitos deles analfabetos e com conhecimento limitado, todo
processo de seleção e venda dos materiais é
feito automaticamente no local. Os valores pagos pelos atravessadores
que vêm até os lixões para comprar os materiais
selecionados são baixos, mas não há outra
opção. "Há materiais que são
ven¬didos com facilidade e outros que nem adianta catar. Quanto
aos preços, também são bem diferentes e podem
variar durante a semana. Portanto, dependendo do período,
não conseguimos tirar nem R$ 40 por semana", diz o
catador José Alberto.
Catadores
comem lixo para sobreviver
Muitos
não só convivem ou trabalham em meio ao lixo. Mas,
com naturalidade, moram nos lixões ou próximo, e
como se não existissem, sobrevivem à margem da sociedade,
do lixo que recolhem para vender e consumir. É assim com
os catadores de lixo João
Sebastião, Marcondes Barbosa e o jovem Daniel Cândido,
que trabalham no lixão de Porto Calvo e dividem um barraco
cedido pelo proprietário da área onde fica o lixão.
Com o pouco que arrecadam por semana da venda dos materiais recolhidos
no lixo, tiram o próprio sustento e alimentam a família.
"Estou aqui porque não há outra alternativa.
Não é que o trabalho seja ruim. Mas, sim, as condições.
Passo a semana por aqui com os outros catadores e nos finais de
semana vou para casa. Aqui, nos viramos de tudo que é jeito
para poder economizar e chegar em casa com algum dinheiro para
a fami1ia", relata Marcondes Barbosa.
Em situação semelhante, o catador Erivaldo Lima,
que trabalha no lixão de Maragogi, vai mais além
e, como ele mesmo relata, não se envergonha em dizer que
come alimentos encontrados no lixo. "Isso é uma realidade;
tenho cinco filhos e o que ganho não dá para comprar
comida e roupa para todos. Assim, boa parte do que usamos e comemos
vem do lixo. Aqui encontramos muita coisa vinda dos hotéis
e restaurantes que vão para nossa mesa. São restos
de comida mesmo, e até peixe, frango, pão e outras
coisas que para eles não prestam; mas que são bem
vindos em nossa mesa", fala ao mostrar o pacote de pão,
arroz e o inhame que foi encontrado no lixo.
Nos lixões, outra atividade bem comum dos catadores é
a criação de animais, como porcos e galinhas, que,
criados em meio ao lixo, servem de alimentos depois.
Saúde
de catadores é vulnerável
Em Arapiraca, cerca de 130 pessoas realizam a separação
do lixo no aterro da cidade e, por não ter uma área
de triagem adequada, se distribuem no local reservado para o destino
final do lixo. Em meio a tratores, dezenas de pessoas disputam
o melhor espaço quando o carro de coleta chega para despejar
o lixo.
Há 12 anos, a jovem Maria Silva Lima, de 21 anos, trabalha
como catadora de lixo. Ela conta que todas as pessoas da sua casa
trabalham na coleta e que retiram o sustento através do
material vendido. "Eu não gosto de estar trabalhando
no lixo, mas já tentei arrumar outro emprego e não
consegui", declara ao reconhecer que, entre tantas dificuldades,
o maior problema de trabalhar no lixão é o risco
de adquirir doenças. "Aqui, todos vivem com a saúde
comprometida. Muitos não sabem disso porque já estão
acostumados a conviver com o lixo, com a fumaça e os insetos",
revela.
Na localidade, além dos catadores do aterro, existem moradores
que trabalham como atravessadores e compram o lixo já separado
para revender. Esse é o caso de José Ferreira da
Silva, que trabalha comercializando o material dos catadores.
Distante da montanha de lixo que são submetidos os catadores,
ele vende os materiais selecionados para um grupo de pessoas que
trabalham com a reciclagem. José Ferreira contou que vende
um saco com cerca de cem quilos de lixo, já separado, por
R$ 10,00. "O dinheiro que ganho da venda do lixo é
o sustento da minha casa", afirma.
Em outras cidades de Alagoas, muitas pessoas vivem e trabalham
nos lixões em situações semelhantes. O estudante
R. S., de 11 anos, da cidade de Major Isidoro, é um deles.
Prático na seleção de material que pode ser
reaproveitado, ele é responsável pelo trabalho manual
que ajuda no sustento alimentar da família. Como o pai,
com quem aprendeu o ofício, é alcoólatra,
R.S. disse que, na maioria das vezes, vai ao lixão sozinho,
mas disse que tenta retornar antes de 12h para ir à escola.
VULNERABILIDADE
Segundo os especialistas, ao lidar com restos de comida, ferros
retorcidos e despejos com resíduos químicos sem
nenhuma proteção, as pessoas estão sujeitas
a doenças, como diarréias, tétano, febre
tifóide, tuberculose, além de doenças gástricas
e leptospirose. De acordo com eles, a transmissão das doenças
pode ocorrer diretamente, através de organismos patogênicos
em resíduos sólidos que atingem as pessoas que manipulam
estes resíduos principalmente em lixões, ou de forma
indireta, que atinge um número maior de pessoas com a poluição
do meio ambiente, a proliferação de insetos e as
doenças adquiridas dos animais que vivem nas proximidades
dos lixões. Fato que pode ser disseminado e se transformar
em epidemia, atingindo comunidades e áreas maiores.

Conduta
consciente reduz produção
Responsabilidade
ambiental e social faz com que empresas e comunidades reconheçam
o valor do lixo
Se
a produção desenfreada de lixo é inerente
à condição da vida humana e o tratamento
adequado quanto à coleta e à destinação
dos resíduos sólidos exige atenção
e custa caro, a única forma de minimizar a problemática
da saturação dos lixões - e, conseqüentemente,
as degradações ambiental e social, que resu1ta na
ameaça à saúde pública - é
a redução da produção de lixo, que
pode ser feita através do consumo consciente e do reaproveitamento
dos materiais que seriam descartados.
Foi na fórmula baseada na redução, na reutilização
e na reciclagem do lixo produzido, que não é nada
mágica, mas que é trabalhosa no processo, porém
compensadora no resultado final, tanto em questões ambiental-social
quanto financeira - que comunidades e empresas encontraram um
meio de conviver com o problema do lixo.
Foi isso que aconteceu com a empresa hoteleira Resort Salinas
do Maragogi, que adotou, há cerca de dois anos, um trabalho
de seleção dos resíduos sólidos e
orgânicos na tentativa de reduzir a quantidade de lixo que
era destinado ao lixão público. A empresa chega
a produzir, mensalmente, cerca de 150 toneladas por mês
de lixo – volume que chega a variar diante da ocupação
e do período do ano. São latas, papelão,
papéis de escritório, plásticos e outros
dejetos que antes eram destinados ao lixo e agora são selecionados
e vendidos para uma empresa de reciclagem.
"Por não ser um processo simples, ainda estamos em
fase de adaptação, mesmo assim conseguimos encaminhar
para a reciclagem mais de 60% dos resíduos que são
produzidos no hotel", expôs a nutricionista da empresa,
Vilma Stimee, enfatizando que o dinheiro arrecadado com a venda
dos materiais recicláveis é destinado à promoção
das festas dos recursos humanos, ofertadas aos funcionários.
Considerando a conduta de reciclagem viável para a empresa
hoteleira nos quesitos compromisso ambiental e social, o responsável
pela área de Alimentos e Bebidas do Resort, Femando Ferreira,
acrescentou que outras medidas ainda serão adotadas para
reduzir a produção de lixo. "Diminuímos
bastante o volume de latinhas descartadas, devido ao sistema da
máquina de refrigerante nos eventos, e estamos estudando
a substituição dos copos de água mineral
descartável, que são servidos no restaurante, pelo
garrafão", destacou Ferreira, relatando que a empresa
já cogitou implantar uma indústria de reciclagem,
mas chegou à conclusão que os custos e benefícios
não compensariam.
RESPONSABILIDADE
Com o sistema de coleta seletiva já amadurecido e aplicado
com eficiência na Pousada Côté Sud, que fica
em São Miguel dos Milagres, a francesa Corinne Vard se
orgulha em destinar para a coleta pública de lixo apenas
10% de toda a produção de lixo da pequena empresa
hoteleira.
"Essa é a conduta adotada pela nossa empresa. Tratamos
e tentamos a todo custo fazer uma destinação correta
do lixo que produzimos. Os resíduos orgânicos são
usados na horta e os sólidos, encaminhamos para a reciclagem.
Não vendemos, apenas armazenamos e repassamos para as pessoas
que fazem a destinação correta", explica Corinne
Vard, que consegue atingir a meta pré¬selecionando
nos supermercados embalagens que podem ser aproveitadas.
Na cozinha, como nos demais ambientes da pousada, a regra é
seguida por funcionários e hóspedes. "Não
é um trabalho fácil, mas, com o tempo, as pessoas
se educam e passam a adotar a coleta seletiva e a respeitar as
limitações da natureza. O melhor é ver que
muitos objetos que são descartados no lixo têm valor",
completa, ressaltando que o objetivo é descartar para a
coleta pública apenas 2% do lixo produzido na pousada.

Reciclagem
e educação ambiental
Com
o aumento da demanda de produtos no mercado e a procura de bens
de consumo e duráveis, a produção teve um
crescimento acelerado nos últimos anos. O resultado foi
o aumento do processo de extração de matéria-prima
e um consumo de energia cada vez maior. Tudo isso faz com que
a quantidade de lixo também cresça na mesma proporção.
A geração de lixo está ligada diretamente
ao consumo.
Quanto mais se compra, mais lixo é gerado, criando um sério
problema ambiental, principalmente nas grandes cidades. A utilização
de material reciclado pode ser uma boa alternativa para quem deseja
minimizar a degradação da natureza e, ao mesmo tempo,
garantir renda.
Em Arapiraca, o artesão Luciano Amorim da Silva dá
vida ao que, na visão de alguns, se destinaria apenas ao
lixo. Ele faz parte da Associação dos Artesãos
de Arapiraca, que possui 65 membros, os quais comercializam os
seus produtos no Mercado do Artesanato de Arapiraca. Luciano é
um dos três artesãos que trabalham com material reciclado.
Ele produz luminária, enfeites, esculturas em aço,
etc.
Além de comercializar os seus produtos, o artesão
realiza oficinas em comunidades carentes. Ele conta que, duran
te as oficinas, procura sempre conscientizar os participantes
para a importância de se preservar o meio ambiente e realizar
a coleta de lixo.. "Ensino as pessoas a verem o lixo de outra
forma e ainda conseguir um meio de renda", declara. Para
conseguir as garrafas e os jornais, a associação
possui algumas parcerias com empresas e conta com a ajuda de uma
rede de parentes, vizinhos e amigos dos associados, que doam o
material que seria jogado no lixo.
HABILIDADE
A
artesã Iracema Marinho da Silva estava desempregada até
que assistiu a um programa de TV que ensinava a fazer jarros de
jornal. "Estava passando por dificuldades financeiras e decidi
fazer o trabalho com jornal", conta. Ela começou fazendo
enfeites para a sua casa e, com o passar do tempo, foi adquirindo
mais habilidade para aprender a fazer artesanato com o material
reciclável. Hoje, Iracema vende os seus trabalhos em uma
banca no Mercado do Artesanato de Arapiraca. "Com a reciclagem
pude ter o meu próprio dinheiro e ainda ajudar os meus
filhos nas despesas de casa". Dentre os materiais produzidos
com jornal estão cestos, porta-retratos, luminárias,
porta-ovos e bandejas.
Fonte: O Jornal 17/02/2008 - 24/02/2008 - 02/03/2008
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