....5 de março de 2008
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O LIXO NOSSO DE CADA DIA

Resíduos sólidos: problema inadiável

Sem recursos e orientação adequada, municípios alagoanos jogam o problema para “debaixo do tapete”

Carolina Sanches e Waldson Costa
Repórteres

O destino dos resíduos sólidos descartados dia-a-dia pela população dos municípios alagoanos, as conseqüências da má gestão e do manejo inadequado da montanha de lixo, assim como as alternativas para amenizar os impactos ambiental e social gerados pelo problema, que é inerente à condição da vida humana, serão temas discutidos a partir desta edição pela equipe das sucursais de O JORNAL na série de reportagem "0 lixo nosso de cada dia". Nesta primeira reportagem estaremos contextualizando a realidade dos lixões de algumas cidades do interior do Estado, as condições e dificu1dades de coleta, o manejo e a destinação do lixo pelas instituições públicas municipais. Na seqüência, expondo um quadro social, abordaremos as conseqüências do lixo na vida e na saúde das comunidades e das pessoas que convivem lado a lado, diretamente, com o descarte da população. Na terceira e última reportagem, exemplos de condutas de empresas, ONGs, comunidades e instituições que encontraram na reciclagem e na seleção do lixo uma forma rentável com técnicas simples e baratas de ajudar o meio ambiente e garantir renda extra. Veja a seguir:

O sinal de alerta já ecoou há tempos, mas, até o momento, parece não ter despertado a atenção da população e dos responsáveis pela gestão e pela destinação do lixo doméstico que é produzido nas cidades. Os depósitos de lixos de parte dos municípios alagoanos estão prestes a explodir. Entre a montanha de entulhos de descartes domésticos faltam leis consistentes, recursos e alternativas eficientes para lidar com o inadiável problema e sobram prejuízos ambientais e sociais, que culminam na saúde pública.

Com poucos recursos para investir na coleta, no processo de manejo e no armazenamento do lixo doméstico, os municípios alagoanos empurram o problema “para debaixo do tapete” na tentativa de adiar as conseqüências do abarrotamento de lixo, que ganha cada dia mais espaço nas áreas que servem de depósito. Para se ter uma idéia, muitos municípios não têm, sequer, controle da produção diária de lixo que é destinada aos depósitos. Sem dados concretos sobre o lixo, a questão, em muitos casos, se restringe a uma leve abordagem no Plano Diretor das cidades de uma forma tão superficial que dificilmente as idéias sairão do papel para a prática.

Só entre os municípios litorâneos de Maragogi e Japaratinga há uma estimativa que oito caminhões, ou mais, despejem diariamente resíduos nas crateras dos lixões a céu aberto, isso, com as projeções que levam em conta os dados da população, mas que não incluem a quantidade exata de lixo produzido na alta temporada nem nas empresas hoteleiras de grande porte da região. Situação que não é diferente em municípios distintos, como Porto Calvo, Matriz do Camaragibe, São Luís do Quitunde, Major Isidoro, Olho d' Agua das Flores, Arapiraca e Maribondo.

Sem a atenção devida, o lixo produzido pela população é destinado, de forma aleatória, aos terrenos baldios, ameaçando tanto o meio ambiente quanto a saúde pública e a qualidade de vida da população. A tendência natural, caso perdure o cenário de ausência de políticas públicas e investimentos adequados, é de o quadro se agravar. Dados do IBGE mostram que, enquanto a população cresceu 15%, a coleta de resíduos urbanos evoluiu 490%



CUSTOS

Processar os resíduos sólidos - domésticos, industriais e hospitalares - de forma adequada custa caro e exige técnica e equipamentos de apoio específicos, que, na realidade, não cabe no orçamento das Prefeituras Municipais. Dessa forma, parte da coleta e do transporte do lixo, nos municípios alagoanos, é feita de forma amadora em carrocerias abertas e sem nenhum cuidado específico e os depósitos são a céu aberto em pontos da zona rural sem nenhuma divisão isolante que impeça a entrada de animais domésticos ou pessoas. Fato que favorece a contaminação de pessoas e animais, do lençol freático, dos rios e das áreas verdes.

Sozinhos, os municípios não têm como resolver o problema

Por mais ações e estratégias que sejam adotadas para tentar resolver o problema do lixo, a realidade é que, sozinhos, os municípios não têm como pagar a conta dos procedimentos técnicos nem equipar o sistema de limpeza e o destino final do lixo. "Por mais que se faça, tudo nos parece paliativo". Esta é a resposta do prefeito do município de Major Izidoro, José Pedro Vieira da Costa, que tem em sua gestão municipal o lixo como maior agravante para o desenvolvimento da cidade.

Além de um lixão abarrotado e de um sistema de coleta inadequado, ao lado do depósito há uma comunidade que vive paralelamente a miséria do lixo. Segundo o prefeito, há tempos se busca resolver o problema do lixo na região, mas as soluções encontradas pelo município sempre são paliativas. "Sei que a única solução para esse problema seria a construção de um aterro sanitário, mas essa proposta só será concretizada a longo prazo. Enquanto isso, que ação podemos adotar?", questiona ao vivenciar no presente a falta de planejamento que só agora, a partir da exigência do Plano Diretor, passou a ser adotada pelas cidades brasileiras.

Preocupado com a atual realidade do lixão do município, ele informou que só a construção de um aterro sanitário, acoplada a uma série de procedimentos, pode modificar a situação da cidade. "Já sabemos que qualquer ação isolada não tem como surtir efeito, portanto, a nossa única saída é elaborar com outros municípios, através dos consórcios impulsionados pelos governos federal e estadual, um plano regional para a gestão de resíduos sólidos, que inclui a construção do aterro e condutas corretas", diz José Pedro Vieira.

POLUIÇÃO

Sem local adequado para levar o lixo, moradores de cidades ribeirinhas utilizam as margens do rio como depósito dos dejetos. No povoado Capelinha, em Major Isidoro, apesar de trabalhadores da prefeitura realizarem a limpeza das ruas da cidade, não existe aterro sanitário no local, e o lixo é depositado às margens do rio.

Dessa forma, o depósito de lixo não atinge apenas a saúde do rio e da população local, mas, segundo especialistas, parte do bioma da região, fato que encarece as políticas de saúde e influencia nos resultados de doenças que já poderiam ter sido eliminadas.

Para se ter uma idéia dos custos do manejo correto do lixo, a construção de um aterro para uma cidade de 50 mil habitantes custa quase o mesmo que uma unidade para 150 mil. Como 85% dos municípios têm abaixo de 15 mil moradores e até menos que isso, sai muito caro para uma prefeitura arcar sozinha com um projeto desse porte. Assim, a saída, como já foi citado, é a criação de consórcios que reúnam cidades vizinhas para compartilhar da mesma estrutura de aterros e tratamento.

Produção maior é durante alta estação

A quantidade de lixo recolhido pelas cidades litorâneas de Maragogi e Japaratinga é relativa diante da periodicidade do ano. No inverno, com as cidades ocupadas apenas pelos moradores, a quantidade e o tipo de lixo produzido nem se comparam com o período de alta estação, quando a cidade é ocupada por veranistas e turistas.

É no verão que o trabalho de limpeza pública é redobrado e, segundo o secretário de Obras de Japaratinga, Eraldo da Rocha Costa, é a época em que é adotada uma coleta diferenciada. "Como a população local e veranista não colabora para manter a cidade limpa, temos que realizar plantões e aumentar o efetivo da limpeza", diz, reconhecendo as deficiências da coleta e da destinação do lixo e enfatizando que não há como fazer diferente diante dos atuais custos para o procedimento e do reduzido quadro de servidores.

Já para os catadores de lixo que trabalham nos lixões a céu aberto das duas cidades, é notável a diferença no volume de lixo e no tipo de material que chega até o depósito final. "No verão, a quantidade de lixo e de caminhões é bem maior, assim como o nosso lucro. Nesse período, também aparece uma maior quantidade de materiais diferenciados, que têm maior valor", afirma o catador de lixo José Aládes, que, durante o Carnaval, sai do lixão para recolher latas de alumínio nos focos de folia. "Tem que ir na cidade buscar. Como o alumínio tem mais valor, se esperar, as latinhas nem chegam aqui", revela.

Se os alumínios das latas de bebidas não chegam ao lixão, o mesmo não se pode dizer dos outros resíduos domésticos. Nas áreas onde estão os lixões de Maragogi, Japaratinga, Porto Calvo e Matriz do Camaragibe, a quantidade de dejetos é incalculável. "Há tanto entulho que é impossível vasculhar tudo. Todo dia chega mais lixo e, para reduzir o volume, tocamos fogo, mesmo sabendo que perdemos parte dos materiais", diz a catadora Maria Cícera de Souza, que trabalha no lixão de Japaratinga há mais de oito anos. "Lembro da época em que a cidade era menor e que o lixão ficava do outro lado; agora, os entulhos são jogados aqui e depois lançados na cratera para limpar a área", descreve Maria Cícera.

Comunidade exige retirada do lixão

Moradores da comunidade Gameleira, em Olho d'Água das Flores, cobram há oito anos a retirada do lixão. O lixo produzido em uma semana pelos moradores corresponde a 20 toneladas em uma cidade com 16 mil habitantes. A coleta é realizada seis vezes por semana através de uma empresa terceirizada, que disponibiliza seis caminhões.

O dejeto recolhido é depositado em área de 50 tarefas ao lado do povoado. A proximidade do lixão com as residências tem sido alvo de reclamações desde que o lixão foi transferido para a região, há oito anos. Aproximadamente, cem famílias remanescentes de quilombo - reconhecimento ainda em fase de tramitação burocrática - são prejudicadas pela localização do lixão. As casas ficam a menos de 200 metros do depósito, o que apresenta um risco ainda maior. "Quando chove, todo o lixo é arrastado para o povoado, sem contar com os insetos, a fumaça e o mau cheiro, que tomam conta do local", ressalta o presidente da associação dos moradores do povoado, Emílio Bezerra da Silva.

As reclamações dos moradores provocaram um impasse com o Ministério Público, que cobra da prefeitura uma destinação adequada. No mês de dezembro, após um protesto realizado pelos moradores do povoado, o promotor Luiz Tenório Oliveira cobrou da prefeitura da cidade providências imediatas no sentido de disciplinar e oranizar o lixão.

O tema foi discutido em uma audiência pública que contou com a presença de representantes do Ministério da Integração e da Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos de Alagoas (Semarh), de autoridades políticas e de moradores do povoado. Durante a audiência, a prefeitura apresentou a proposta da implantação de um aterro sanitário no local, com recursos do consórcio, através da Semarh, que está avançando na consolidação de uma política de implantação de aterros nos municípios alagoanos. Ainda durante a audiência foram acertadas algumas medidas paliativas, como o isolamento da área com cerca, a cobertura de lona para os caminhões e a revirada do lixo para evitar o acúmulo de moscas.

Com relação ao aterro sanitário, o prefeito Carlos André dos Anjos "Nen" (PPS) explica que, desde 2005, está sendo elaborado um projeto, o qual todos os aspectos legais e ambientais foram avaliados. "A 1ª etapa desse projeto é achar uma solução adequada para o lixo, que hoje é despejado a céu aberto, contaminando e poluindo o meio ambiente. A partir daí iremos buscar a possibilidade de trabalhar a coleta seletiva nas cidades", afirmou.

MOBILIZAÇÃO

Na última terça-feira (12), uma comissão composta por representantes do poder público e moradores do povoado Gameleira esteve na cidade de João Pessoa, na Paraíba, para conhecer o aterro sanitário, implantado há cinco anos. A visita teve como objetivo a coleta de informações em relação ao sistema de tratamento de lixo do município, que vem sendo apontado como exemplo de sucesso na implantação da técnica.

Projeto implantado aterro relevado

Um projeto de aterro sanitário utilizando tecnologia de tratamento biológico e físico-químico foi implantado há cinco anos, na Serra da Mangabeira, em Arapiraca; entretanto, não seguiu as suas nuances. O local possui toda a estrutura necessária para um aterro, com célula fechada, filtro de gás e estações de tratamento do chorume, mas não é considerado um aterro sanitário por causa do galpão de triagem, que não esta funcionando.
De acordo com o secretário de Meio Ambiente de Arapiraca, Luiz Ricardo Vieira, apesar de o galpão não estar funcionando, já é feita a separação do lixo por mais de 200 catadores que trabalham no local. "Estamos preparando o projeto para concluir o galpão e isolar o local onde é colocado o lixo", explica.

Consórcios surgem como alternativa

Dos 102 municípios alagoanos, incluindo a capital, Maceió, nenhum deles possui as condições corretas de coleta e destinação dos resíduos sólidos. Diante dessa realidade, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos vem projetando um diagnóstico da situação dos municípios para inseri-los e contemplá-los no Plano Estadual de Regionalização de Gestão de Resíduos Sólidos.

Segundo a gerente de Planejamento em Saneamento da secretaria, a economista Elaine Patrícia Melo, o problema da má gestão do lixo envolve uma série de fatores, que comprometem desde os números da saúde pública até a economia em geral. Apesar de o lixo ser um problema inadiável, as suas conseqüências e soluções vieram à tona recentemente, portanto, antes de colocar o plano de regionalização para a gestão dos resíduos sólidos em prática, será necessária uma série de passos e estudos", disse.

"Por mais simples que se pareça, as soluções são complexas e isoladas. Afinal, cada município tem a sua particularidade, e isso precisa ser considerado no projeto, que envolve a formação do aterro e a logística para a condução e a destinação do lixo. Não há como captar recursos para fazer um aterro numa região onde os municípios produzem uma quantidade bem inferior da capacidade do aterro e vice versa; portanto, acredito que os consórcios entre os municípios, o Estado e até o público-privado são as saídas, mas, para isso, é preciso um dossiê da realidade com dados concretos", expôs a gerente Elaine Melo, enfatizando que os fóruns para discutir a questão já foram iniciados em Alagoas.

A sobrevivência garimpada no lixo

Fincados nas montanhas de detritos, seres humanos disputam com animais o “pão” de cada dia

A realidade é subumana. A cena, comum de encontrar em qualquer depósito de lixo do Estado. Na luta pela sobrevivência, homens, mulheres, idosos e até crianças, que vivem fincados no lixo garimpando entulhos - sem nenhuma proteção - em busca do sustento diário; de comida e até de dias melhores; parece que são inerentes e, ao mesmo tempo, imunes à montanha de detritos, à fumaça e ao gás tóxico produzido pela incineração dos resíduos, aos insetos e a toda contaminação que possa conter nos lixões.

A cada descarga de lixo dos caminhões que chegam das cidades, as expectativas dos catadores são renovadas. Na ânsia de conferir o que foi descartado pela população, eles ajudam a descarregar os veículos no momento que já pré-selecionam o que desejam e o que possa ser útil para venda, para o uso e o consumo próprio. De forma rápida e precisa, revirando a montanha de entulhos com as mãos e "ciscadores", mas sem nenhuma proteção ou cuidado, eles garimpam o lixo separando papelão, plástico, metal, garrafas peti, alumínio e até mesmo roupas, objetos e comida.

Entre os catadores de lixo estão homens, idosos, jovens, mulheres grávidas e até mesmo crianças (menores de 5 e 7 anos, que, segundo os país e avós, não trabalham no local, mas, sim, acompanham os adultos até o lixão). "Eles apenas vêm conosco e ficam brincando. Não temos como deixá-los em casa sozinhos", explica um dos catadores.

Com muitos deles analfabetos e com conhecimento limitado, todo processo de seleção e venda dos materiais é feito automaticamente no local. Os valores pagos pelos atravessadores que vêm até os lixões para comprar os materiais selecionados são baixos, mas não há outra opção. "Há materiais que são ven¬didos com facilidade e outros que nem adianta catar. Quanto aos preços, também são bem diferentes e podem variar durante a semana. Portanto, dependendo do período, não conseguimos tirar nem R$ 40 por semana", diz o catador José Alberto.

Catadores comem lixo para sobreviver

Muitos não só convivem ou trabalham em meio ao lixo. Mas, com naturalidade, moram nos lixões ou próximo, e como se não existissem, sobrevivem à margem da sociedade, do lixo que recolhem para vender e consumir. É assim com os catadores de lixo João
Sebastião, Marcondes Barbosa e o jovem Daniel Cândido, que trabalham no lixão de Porto Calvo e dividem um barraco cedido pelo proprietário da área onde fica o lixão. Com o pouco que arrecadam por semana da venda dos materiais recolhidos no lixo, tiram o próprio sustento e alimentam a família.

"Estou aqui porque não há outra alternativa. Não é que o trabalho seja ruim. Mas, sim, as condições. Passo a semana por aqui com os outros catadores e nos finais de semana vou para casa. Aqui, nos viramos de tudo que é jeito para poder economizar e chegar em casa com algum dinheiro para a fami1ia", relata Marcondes Barbosa.

Em situação semelhante, o catador Erivaldo Lima, que trabalha no lixão de Maragogi, vai mais além e, como ele mesmo relata, não se envergonha em dizer que come alimentos encontrados no lixo. "Isso é uma realidade; tenho cinco filhos e o que ganho não dá para comprar comida e roupa para todos. Assim, boa parte do que usamos e comemos vem do lixo. Aqui encontramos muita coisa vinda dos hotéis e restaurantes que vão para nossa mesa. São restos de comida mesmo, e até peixe, frango, pão e outras coisas que para eles não prestam; mas que são bem vindos em nossa mesa", fala ao mostrar o pacote de pão, arroz e o inhame que foi encontrado no lixo.

Nos lixões, outra atividade bem comum dos catadores é a criação de animais, como porcos e galinhas, que, criados em meio ao lixo, servem de alimentos depois.

Saúde de catadores é vulnerável

Em Arapiraca, cerca de 130 pessoas realizam a separação do lixo no aterro da cidade e, por não ter uma área de triagem adequada, se distribuem no local reservado para o destino final do lixo. Em meio a tratores, dezenas de pessoas disputam o melhor espaço quando o carro de coleta chega para despejar o lixo.

Há 12 anos, a jovem Maria Silva Lima, de 21 anos, trabalha como catadora de lixo. Ela conta que todas as pessoas da sua casa trabalham na coleta e que retiram o sustento através do material vendido. "Eu não gosto de estar trabalhando no lixo, mas já tentei arrumar outro emprego e não consegui", declara ao reconhecer que, entre tantas dificuldades, o maior problema de trabalhar no lixão é o risco de adquirir doenças. "Aqui, todos vivem com a saúde comprometida. Muitos não sabem disso porque já estão acostumados a conviver com o lixo, com a fumaça e os insetos", revela.

Na localidade, além dos catadores do aterro, existem moradores que trabalham como atravessadores e compram o lixo já separado para revender. Esse é o caso de José Ferreira da Silva, que trabalha comercializando o material dos catadores. Distante da montanha de lixo que são submetidos os catadores, ele vende os materiais selecionados para um grupo de pessoas que trabalham com a reciclagem. José Ferreira contou que vende um saco com cerca de cem quilos de lixo, já separado, por R$ 10,00. "O dinheiro que ganho da venda do lixo é o sustento da minha casa", afirma.

Em outras cidades de Alagoas, muitas pessoas vivem e trabalham nos lixões em situações semelhantes. O estudante R. S., de 11 anos, da cidade de Major Isidoro, é um deles. Prático na seleção de material que pode ser reaproveitado, ele é responsável pelo trabalho manual que ajuda no sustento alimentar da família. Como o pai, com quem aprendeu o ofício, é alcoólatra, R.S. disse que, na maioria das vezes, vai ao lixão sozinho, mas disse que tenta retornar antes de 12h para ir à escola.

VULNERABILIDADE

Segundo os especialistas, ao lidar com restos de comida, ferros retorcidos e despejos com resíduos químicos sem nenhuma proteção, as pessoas estão sujeitas a doenças, como diarréias, tétano, febre tifóide, tuberculose, além de doenças gástricas e leptospirose. De acordo com eles, a transmissão das doenças pode ocorrer diretamente, através de organismos patogênicos em resíduos sólidos que atingem as pessoas que manipulam estes resíduos principalmente em lixões, ou de forma indireta, que atinge um número maior de pessoas com a poluição do meio ambiente, a proliferação de insetos e as doenças adquiridas dos animais que vivem nas proximidades dos lixões. Fato que pode ser disseminado e se transformar em epidemia, atingindo comunidades e áreas maiores.

Conduta consciente reduz produção

Responsabilidade ambiental e social faz com que empresas e comunidades reconheçam o valor do lixo

Se a produção desenfreada de lixo é inerente à condição da vida humana e o tratamento adequado quanto à coleta e à destinação dos resíduos sólidos exige atenção e custa caro, a única forma de minimizar a problemática da saturação dos lixões - e, conseqüentemente, as degradações ambiental e social, que resu1ta na ameaça à saúde pública - é a redução da produção de lixo, que pode ser feita através do consumo consciente e do reaproveitamento dos materiais que seriam descartados.

Foi na fórmula baseada na redução, na reutilização e na reciclagem do lixo produzido, que não é nada mágica, mas que é trabalhosa no processo, porém compensadora no resultado final, tanto em questões ambiental-social quanto financeira - que comunidades e empresas encontraram um meio de conviver com o problema do lixo.

Foi isso que aconteceu com a empresa hoteleira Resort Salinas do Maragogi, que adotou, há cerca de dois anos, um trabalho de seleção dos resíduos sólidos e orgânicos na tentativa de reduzir a quantidade de lixo que era destinado ao lixão público. A empresa chega a produzir, mensalmente, cerca de 150 toneladas por mês de lixo – volume que chega a variar diante da ocupação e do período do ano. São latas, papelão, papéis de escritório, plásticos e outros dejetos que antes eram destinados ao lixo e agora são selecionados e vendidos para uma empresa de reciclagem.

"Por não ser um processo simples, ainda estamos em fase de adaptação, mesmo assim conseguimos encaminhar para a reciclagem mais de 60% dos resíduos que são produzidos no hotel", expôs a nutricionista da empresa, Vilma Stimee, enfatizando que o dinheiro arrecadado com a venda dos materiais recicláveis é destinado à promoção das festas dos recursos humanos, ofertadas aos funcionários.

Considerando a conduta de reciclagem viável para a empresa hoteleira nos quesitos compromisso ambiental e social, o responsável pela área de Alimentos e Bebidas do Resort, Femando Ferreira, acrescentou que outras medidas ainda serão adotadas para reduzir a produção de lixo. "Diminuímos bastante o volume de latinhas descartadas, devido ao sistema da máquina de refrigerante nos eventos, e estamos estudando a substituição dos copos de água mineral descartável, que são servidos no restaurante, pelo garrafão", destacou Ferreira, relatando que a empresa já cogitou implantar uma indústria de reciclagem, mas chegou à conclusão que os custos e benefícios não compensariam.

RESPONSABILIDADE

Com o sistema de coleta seletiva já amadurecido e aplicado com eficiência na Pousada Côté Sud, que fica em São Miguel dos Milagres, a francesa Corinne Vard se orgulha em destinar para a coleta pública de lixo apenas 10% de toda a produção de lixo da pequena empresa hoteleira.
"Essa é a conduta adotada pela nossa empresa. Tratamos e tentamos a todo custo fazer uma destinação correta do lixo que produzimos. Os resíduos orgânicos são usados na horta e os sólidos, encaminhamos para a reciclagem. Não vendemos, apenas armazenamos e repassamos para as pessoas que fazem a destinação correta", explica Corinne Vard, que consegue atingir a meta pré¬selecionando nos supermercados embalagens que podem ser aproveitadas.

Na cozinha, como nos demais ambientes da pousada, a regra é seguida por funcionários e hóspedes. "Não é um trabalho fácil, mas, com o tempo, as pessoas se educam e passam a adotar a coleta seletiva e a respeitar as limitações da natureza. O melhor é ver que muitos objetos que são descartados no lixo têm valor", completa, ressaltando que o objetivo é descartar para a coleta pública apenas 2% do lixo produzido na pousada.

Reciclagem e educação ambiental

Com o aumento da demanda de produtos no mercado e a procura de bens de consumo e duráveis, a produção teve um crescimento acelerado nos últimos anos. O resultado foi o aumento do processo de extração de matéria-prima e um consumo de energia cada vez maior. Tudo isso faz com que a quantidade de lixo também cresça na mesma proporção.
A geração de lixo está ligada diretamente ao consumo.

Quanto mais se compra, mais lixo é gerado, criando um sério problema ambiental, principalmente nas grandes cidades. A utilização de material reciclado pode ser uma boa alternativa para quem deseja minimizar a degradação da natureza e, ao mesmo tempo, garantir renda.

Em Arapiraca, o artesão Luciano Amorim da Silva dá vida ao que, na visão de alguns, se destinaria apenas ao lixo. Ele faz parte da Associação dos Artesãos de Arapiraca, que possui 65 membros, os quais comercializam os seus produtos no Mercado do Artesanato de Arapiraca. Luciano é um dos três artesãos que trabalham com material reciclado. Ele produz luminária, enfeites, esculturas em aço, etc.

Além de comercializar os seus produtos, o artesão realiza oficinas em comunidades carentes. Ele conta que, duran te as oficinas, procura sempre conscientizar os participantes para a importância de se preservar o meio ambiente e realizar a coleta de lixo.. "Ensino as pessoas a verem o lixo de outra forma e ainda conseguir um meio de renda", declara. Para conseguir as garrafas e os jornais, a associação possui algumas parcerias com empresas e conta com a ajuda de uma rede de parentes, vizinhos e amigos dos associados, que doam o material que seria jogado no lixo.

HABILIDADE

A artesã Iracema Marinho da Silva estava desempregada até que assistiu a um programa de TV que ensinava a fazer jarros de jornal. "Estava passando por dificuldades financeiras e decidi fazer o trabalho com jornal", conta. Ela começou fazendo enfeites para a sua casa e, com o passar do tempo, foi adquirindo mais habilidade para aprender a fazer artesanato com o material reciclável. Hoje, Iracema vende os seus trabalhos em uma banca no Mercado do Artesanato de Arapiraca. "Com a reciclagem pude ter o meu próprio dinheiro e ainda ajudar os meus filhos nas despesas de casa". Dentre os materiais produzidos com jornal estão cestos, porta-retratos, luminárias, porta-ovos e bandejas.

Fonte: O Jornal 17/02/2008 - 24/02/2008 - 02/03/2008