| Lixo
gerado pela construção civil
é
mais poluente que o doméstico
Resíduos,
que têm componentes químicos, chegam a 60% do que
é encontrado no Lixão
Aline
Mirele
Repórter
Cerca
de 60% do que é depositado no Lixão de Maceió
são resíduos originados de obras de reformas e construções.
Esse é um grave problema, pois esses materiais possuem
muitos componentes químicos e tóxicos. São
tão agressivos ao meio ambiente que não deveriam
estar misturados ao lixo comum.
Para resolver essa questão, o Conselho Nacional do Meio
Ambiente (Conama) determinou, em 2002, por meio de resolução,
que os municípios deveriam reservar uma área específica
para destinação final desse tipo de material. Até
hoje Maceió descumpre essa norma.
A Resolução 307 do Conama estabeleceu diretrizes,
critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos
da construção civil. Também deu prazo para
que os municípios se adequassem à norma. O prazo
expirou em 2004. A maioria dos governos municipais não
cumpriu essa determinação e até agora esses
resíduos se misturam aos lixos domésticos.

''Das 1200 toneladas de lixo que recebemos diariamente no Lixão,
cerca de 60% são da construção civil",
revela Alder Flores, assessor técnico da Superintendência
de Limpeza Urbana de Maceió (Slum).
O secretário municipal de Proteção ao Meio
Ambiente, Ricardo Ramalho, disse que somente no novo aterro sanitário
é que haverá a área específica para
esse tipo de lixo, e justifica o não atendimento à
resolução do Conama. ''Ela responsabiliza o setor
público e a iniciativa privada, mas não deixa claro
o que acontece se isso não for feito", afirma.
DANOS
Por
não possuir mau cheiro, muitas pessoas não imaginam
o quanto esse tipo de lixo é nocivo ao meio ambiente e
à saúde. A indústria da construção
civil é um setor que causa grandes impactos ambientais.
Os processos de extração de matérias primas
necessárias para fabricação dos produtos,
passando pelas obras, até a destinação final
dos resíduos, resultam em muitos danos. Tintas, solventes,
óleos e outros componentes químicos são extremamente
tóxicos e contaminam o solo, poluem a água e podem
causar doenças respiratórias e cancerígenas.
Construções
informais são as principais poluidoras
A
falta de informação e campanhas educativas fazem
com que o cidadão comum seja o principal causador da destinação
incorreta dos resíduos sólidos. Apesar de as construtoras
produzirem o maior volume, elas também dão o melhor
encaminhamento do material.
No setor da construção, levantamentos mostram que
de 15% a 30% do que chega nos aterros vêm das construções
formais e os percentuais de 70% a 85% são oriundos das
construções informais (pequenos geradores).
Ao planejar uma obra, o responsável deve apresentar antecipadamente
um Plano de Gerenciamento de Resíduos da Construção
Civil (PGRCC), determinado pelo Conama. Nele deve conter aula
de educação ambiental para os trabalhadores da obra,
coleta seletiva e o encaminhamento que será dado às
sobras do material, que devem ser levadas para áreas de
transbordo e triagem, reciclagem (cooperativas de catadores).
Essa gestão sustentável baseia-se também
no princípio dos três Rs (Reduzir os resíduos
ao máximo), definido na Agenda 21 da Rio-92.
De acordo com a consultora ambiental Gimênia Romualdo, a
aplicação do PGRCC além de trazer benefícios
para o meio ambiente traz vantagens econômicas para quem
a desenvolve. "O desperdício era de 25%, ou seja,
para cada quatro casas construídas, desperdiçava-se
material suficiente para construir uma quinta casa. Com o PGRCC,
que é obrigatório, as construtoras conseguiram economizar
cerca de 30% do valor previsto", explica.

O engenheiro agrônomo e responsável técnico
pelo aterro, Valmir Washington, dá exemplo do que a destinação
incorreta pode resultar: "Em um terreno aqui próximo
à Slum foram colocadas sobras de construção
para nivelá-lo Como essa nivelação não
foi feita imediatamente, as pessoas começaram a jogar lixo
doméstico lá. Agora já está tudo misturado",
explica.
USINA
Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias da Construção
Civil de Alagoas (Sinduscon/AL), Alzir Uma, a entidade já
solicitou à prefeitura a área do antigo Ceasa para
a construção de uma usina de reciclagem. "O
município tem que regularizar toda essa questão.
Acreditamos que até o final de 2009 essa usina estará
em operação", afirma.
Enquanto isso, segundo o responsável pelo aterro, os resíduos
da construção civil são utilizados para forrar
a estrada e cobrir o lixo para evitar combustão. "Nos
últimos dois anos o acúmulo desses resíduos
cresceu de 20 a 30%", afirma Va1mir Washington.
Solução
é gerenciamento de resíduos e conscientização
Cerca
de 40% a 60% podem ser reaproveitados
O
gerenciamento dos resíduos só gera boas possibilidades.
Estudos mostram que entre 40% e 60% dos resíduos que chegam
aos aterros em todo o País poderiam ser reaproveitados
na pavimentação, na produção de blocos
prémoldados, de argamassa, entre outros.
Para Gimênia Romualdo, Maceió sustenta o problema
da não destinação correta devido à
falta de informação. "As construtoras sabem
dar o direcionamento dos resíduos: mandam para cooperativas
de catadores, a madeira vai para panificações, mas
o problema é a falta de conscientização daquela
pessoa que vai reformar ou construir sua casa e acaba juntando
todos os entulhos na porta. Isso, além de prejudicar a
reutilização do material, acaba sendo vetor para
proliferação de ratos e escorpiões, por exemplo.
Mas, para isso, tem que haver campanhas educativas e mais debate
desse tema, que sempre foi pouco explorado", explica.
Com a conscientização é possível avançar.
Muitas cidades investem em novas tecnologias de reaproveitamento
e somam vários benefícios à comunidade e
ao meio ambiente. A coleta seletiva dos materiais recicláveis
nas obras viabiliza o aproveitamento do entulho limpo, que pode
ser utilizado pela prefeitura para execução de base
e sub-base de asfalto, blocos de concreto, construção
de casas populares, entre outros. Belo Horizonte, em Minas Gerais,
é referência na América Latina.

FUTURO
A promessa da Slum é de cumprir a norma do Conama no novo
aterro sanitário, que deverá ser implantado até
outubro deste ano - segundo a mais recente prorrogação
do Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado entre a prefeitura
e o Ministério Público Federal. O município
também se comprometeu com a recuperação da
área degradada que deverá ser transformada num parque
sócioambiental.
Reformas
e pequenas construções poluem mais o meio ambiente
Estudos
de especialistas ambientais revelam que cada pessoa gera diariamente,
em média, 0,8 kg de lixo. No entanto, o maior poluidor
é o setor da construção civil, que é
responsável por cerca de 60% de tudo que é depositado
no Lixão de Maceió. Mas são os cidadãos
comuns, e não as construtoras, os responsáveis pela
destinação inadequada dos entulhos.
Poder
Legislativo dá mau exemplo
Outro
mau exemplo, dessa vez vindo da Assembléia Legislativa,
pôde ser comprovado esta semana. Os entulhos das obras de
reforma do prédio legislativo encontram-se amontoados,
sem a separação adequada dos resíduos. Segundo
os trabalhadores, eles não foram orientados para fazer
a coleta seletiva. São concretos, pisos, plástico,
areia, ferro, latas de tinta, entre outros, misturados até
com galhos de árvores e outros perecíveis. O engenheiro
responsável pela obra disse que os procedimentos corretos
foram repassados.

Brechó
da construção seria um bom negócio
A
consultora ambiental Gimênia Romualdo sugere como uma boa
solução para o problema dos resíduos da construção
civil a criação de um "Brechó da
Construção", como já existe na Bahia
e em Minas Gerais. Esse tipo de brechó não visa
lucro e serve para atender às comunidades de baixa renda.
Com isso, as cidades reduzem o lixo e beneficiam a população
mais carente. "05 brechós são administrados
pelas prefeituras. O dinheiro arrecadado com as vendas é
revertido em obras de saneamento e limpeza urbana", exemplifica.
Slum
e Sempma recebem denúncias
De
acordo com o Código Municipal de Meio Ambiente de Maceió,
a multa para quem joga entulhos varia de duas a 100 Ufirs (Unidades
Fiscais de Referência do Município). A Slum não
disponibiliza os serviços de retirada de entulho gratuitamente,
então é necessária a contratação
de uma empresa para esse tipo de trabalho. Os valores da locação
do contêiner variam entre R$ 65 a R$ 70, por dia, mas têm
empresas que permitem o aluguel por uma semana. Para denúncias
de entulhos deve-se entrar em contato com a Slum pelo telefone
3315-4501 ou por e-mail: slum@maceio.al.gov.br. A Secretaria Municipal
de Proteção ao Meio Ambiente também pode
receber as reclamações pelo telefone 3315-4745 e
pelo e-mail sempma@maceio.al.gov.br.
Fonte:
Tribuna Independente – 30/03/2008
Fotos:
Adailson Calheiros
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