....5 de março de 2008
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Indústria moveleira devasta jaqueiras

Transformação de árvores frutíferas em móveis de luxo foge ao controle do governo e dá lucro no litoral Norte de Alagoas

Severino Carvalho
Repórter

Quem nunca se lambuzou no grude para provar dos sabores e aromas da jaca? Pois bem, em Alagoas, o suculento fruto e sua árvore estão ameaçados pela indústria moveleira. O mobiliário rústico feito a partir do robusto tronco da jaqueira (Artocarpus hetorophyllus) caiu no gosto popular.
Sem legislação específica que proíba a derrubada de árvores frutíferas e a ausência de uma cultura sustentável, a devastação avança e marceneiros já enfrentam dificuldades para encontrar a matéria prima, vendida a preço de ouro por donos de sítios e fazendas. Estes aniquilam áreas cultivadas para plantar pasto ou cana-de-açúcar.

Um único exemplar, com mais de cem anos de existência, chega a ser vendido a R$ 1.600. Quanto maior o diâmetro, mais valioso é o tronco. Em época de debates acalorados sobre aquecimento global, ambientalistas alertam: árvores frutíferas desempenham a mesma função ambiental das espécies nativas.

A Gazeta identificou marcenarias que trabalham com ajaqueira em Maragogi, Japaratinga, Matriz do Camaragibe, Murici, Pilar e em São Miguel dos Milagres. Neste município, existem quatro empresas atuando no ramo.

Na marcenaria de Severino Valentin, 37 anos de idade e onze de profissão, a produção de móveis a partir da jaqueira já representa mais de 50% de seu faturamento. E olhe que o profissional começou a trabalhar com essa matéria-prima a menos de um ano.

"Comecei por causa da procura", confessa o marceneiro, que também é artesão. No início da produção, Valentin encontrava com facilidade troncos de jaqueira; hoje, a realidade é outra. "A jaqueira está acabando na região", atestou. Antes, as árvores muitas vezes eram até doadas ou custavam, no máximo, R$ 150.

TRONCO E 30 MESAS

"Tem um dono de sitio ali que quer me vender uma jaqueira enorme, com quase três metros de diâmetro, por 1 mil", revelou o marceneiro. Valentin garante que com um tronco desse é possível construir até 30 mesas rústicas acompanhadas do jogo de quatro bancos ou cadeiras, cujos preços variam de R$ 400 a R$ 700.

Ismar Luiz Bispo, 48 anos, é uma espécie de atravessador. Ele compra jaqueiras a donos de sítios e fazendas e as revende aos marceneiros da região de São Miguel dos Milagres, um dos maiores produtores de móveis rústicos dessa categoria na região Norte de Alagoas.

Bispo trabalha no ramo há 30 anos com outros tipos de madeira. No início, a venda de jaqueira era tímida e acontecia apenas para a construção de barcos; hoje, o carro-chefe é a movelaria. A margem de lucro dele cresceu e chega a 50%.

"Eu compro jaqueiras centenárias com dois metros de diâmetro por R$ 500 e as revendo por R$ 1 mil. O produto está escasso, mas eu sei onde encontrar. Compro geralmente a donos de sítios e fazendas que querem se desfazer das árvores frutíferas para botar o pasto ou arrendar terras às usinas da região que desejam plantar cana", revelou o atravessador. "Os fazendeiros não querem saber do fruto, que não vale nada (comercialmente)" .

Só numa fazenda, em Porto Calvo, mais de 300 metros cúbicos de árvores frutíferas, algumas de lei, foram devastados no inicio deste mês. E, segundo a Justiça, a propriedade, reivindicada pelo Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) passa por processo de inventário.

"Quando o proprietário sabe que a área vai ser dos sem-terra, ele corta as jaqueiras e outras árvores, e vende.

Tronco de Jaqueira é utilizado até na indústria naval

Originária da Ásia, espécie está ameaçada de extinção em Alagoas

Da jaqueira nada se perde, tudo se desfruta. Os gomos (ou favos) são nutritivos, e, no período do verão, alimentam tanto o homem como os animais, a exemplo de micos, macacos, quatis, aves, gambás, lagartos, entre outros. As sementes cozidas são comestíveis, ricas em amido. O tronco é muito utilizado na construção naval. "A madeira da jaqueira agüenta água", afirma o atravessador Ismar Luiz Bispo.

Mas é a utilização para a movelaria que ameaça esta espécie originária da Ásia, trazida para o Brasil pelos portugueses; aqui a planta adaptou-se bem. A jaqueira assemelha-se ao mogno (madeira de lei) e tem a característica de não oxidar os metais. Suas formas irregulares dão o tom de rusticidade às peças produzidas, que vão desde mesas, passando por bancos, tábuas para cortar carne ou ganham formas de araras e outros bichos (peças artesanais).

"A gente aproveita as formas dada pela natureza: corta o tronco e dá o acabamento", revela o marceneiro José Aldo dos Santos, 34 anos, que aprendeu o oficio com o saudoso artesão Ulisses Ferreira, morto no ano passado, vítima de acidente de moto.

"Eu trabalhava com outro tipo de madeira até descobrir a qualidade da jaqueira", afirmou Santos. Ele possui uma marcenaria em São Miguel dos Milagres. "É uma madeira muito resistente e de rara beleza", observou, enquanto um caminhão com toras de jaqueira era descarregado. Temendo a falta de matéria-prima, o marceneiro estoca material.

LUGAR DE DESTAQUE

Os móveis produzidos com a madeira da jaqueira ocupam lugar de destaque em residências de quem pode pagar pelo mobiliário e são, além de úteis e resistentes, decorativos em restaurantes, pizzarias, hotéis e pousadas. Virou febre no litoral Norte.

A procura por móveis rústicos de jaqueira cresce a cada dia não só em Alagoas como também no Sul e litoral de Pernambuco, a exemplo da cidade de Tamandaré (PE), onde tem uma marcenaria que atua José Aldo. O marceneiro de São Miguel dos Milagres tem clientes em Curitiba dispostos a pagar pelo produto e pelo transporte até a capital do Paraná.

A principal vantagem da jaqueira apontada pelos marceneiros é do ponto de vista legal. "Não temos problemas com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis)" , enfatizou o marceneiro Severino Valentin, de Matriz do Camaragibe, ao se referir à falta de legislação que proíba a derrubada de árvores frutíferas.

Para esconder os impactos ambientais e sociais causados pela devastação das jaqueiras, todos os profissionais e atravessadores que atuam no ramo, entrevistados pela Gazeta, alegam que só compram exemplares que já não dão mais frutos. Uma jaqueira pode produzir frutos por um período de até cem anos. A produção de um exemplar adulto pode alcançar, anualmente, cinqüenta a cem frutos por árvore.

COMPOSIÇÃO

Os gomos possuem carboidratos (18.9g); proteína (1,9g); gordura (0,lg); fibra (1,1g); cálcio (2,0mg); fósforo (30mg); ferro (0,5mg); vitamina A (540 UJ); vitamina (300 UJ). Já a semente contém 6,6 % de proteínas e 25.8% de carboidratos. Num Pais que possui uma legião de miseráveis, está ai um fruto nutritivo, barato e acessível. Até quando?

Analista alerta para fim da árvore frutífera

Para o analista ambienta! do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (lbama), Nazir Salman, a tendência da jaqueira é acabar. Ele propõe que os governos incentivem o plantio destinado à indústria moveleira e defende leis mais rigorosas para a preservação de árvores frutíferas.

“Atualmente não existe lei que impeça a derrubada de árvores frutíferas, a exemplo da jaqueira, que é uma planta exótica de fora do Pais, à exceção das plantadas nas margens dos rios, em regiões urbanas e nas Áreas de Preservação Permanente (APP)”, disse o analista ambiental do Ibama.

“Nada impede que um produtor rural devaste um sitio de jaqueira para plantar outra cultura”, acrescentou Nazir, lembrando que, no entanto, as árvores frutíferas desempenham a mesma função ambiental das árvores nativas, classificadas como madeira de lei, cujo corte é restringido. “Uma árvore, seja ela frutífera ou não, contribui para o bem-estar ambiental, oferecendo sombra e oxigênio”, observou o analista ambiental. Para ele, os profissionais que utilizam a jaqueira para a produção de móveis podem ser incentivados pelos governos a destinar mais para o plantio da matéria prima.

Vale lembrar que para atingir o ponto ideal de corte para a indústria moveleira, a jaqueira tem que possuir de 10 a 20 anos, o que reforça a necessidade de destinar, desde já, áreas para o replantio.

PRAGMATlSMO

Mas, a pressão econômica exercida pela procura faz com que a maioria dos marceneiros proceda de forma pragmática, sem pensar no amanhã. Com a escassez da matéria-prima em Alagoas, profissionais estão sacrificando, cada vez mais, árvores juvenis e buscando exemplares até fora do Estado.

Como os troncos possuem calibre menor, a madeira é cortada e aglomerada para formar mesas, numa espécie de mosaico. Essas peças são menos valorizadas.

Fonte: Gazeta de Alagoas – 22/07/2007