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Indústria
moveleira devasta jaqueiras
Transformação
de árvores frutíferas em móveis de luxo foge
ao controle do governo e dá lucro no litoral Norte de Alagoas
Severino
Carvalho
Repórter
Quem
nunca se lambuzou no grude para provar dos sabores e aromas da
jaca? Pois bem, em Alagoas, o suculento fruto e sua árvore
estão ameaçados pela indústria moveleira.
O mobiliário rústico feito a partir do robusto tronco
da jaqueira (Artocarpus hetorophyllus) caiu no gosto popular.
Sem legislação específica que proíba
a derrubada de árvores frutíferas e a ausência
de uma cultura sustentável, a devastação
avança e marceneiros já enfrentam dificuldades para
encontrar a matéria prima, vendida a preço de ouro
por donos de sítios e fazendas. Estes aniquilam áreas
cultivadas para plantar pasto ou cana-de-açúcar.
Um único exemplar, com mais de cem anos de existência,
chega a ser vendido a R$ 1.600. Quanto maior o diâmetro,
mais valioso é o tronco. Em época de debates acalorados
sobre aquecimento global, ambientalistas alertam: árvores
frutíferas desempenham a mesma função ambiental
das espécies nativas.
A Gazeta identificou marcenarias que trabalham com ajaqueira em
Maragogi, Japaratinga, Matriz do Camaragibe, Murici, Pilar e em
São Miguel dos Milagres. Neste município, existem
quatro empresas atuando no ramo.
Na marcenaria de Severino Valentin, 37 anos de idade e onze de
profissão, a produção de móveis a
partir da jaqueira já representa mais de 50% de seu faturamento.
E olhe que o profissional começou a trabalhar com essa
matéria-prima a menos de um ano.
"Comecei por causa da procura", confessa o marceneiro,
que também é artesão. No início da
produção, Valentin encontrava com facilidade troncos
de jaqueira; hoje, a realidade é outra. "A jaqueira
está acabando na região", atestou. Antes, as
árvores muitas vezes eram até doadas ou custavam,
no máximo, R$ 150.
TRONCO
E 30 MESAS
"Tem um dono de sitio ali que quer me vender uma jaqueira
enorme, com quase três metros de diâmetro, por 1 mil",
revelou o marceneiro. Valentin garante que com um tronco desse
é possível construir até 30 mesas rústicas
acompanhadas do jogo de quatro bancos ou cadeiras, cujos preços
variam de R$ 400 a R$ 700.
Ismar Luiz Bispo, 48 anos, é uma espécie de atravessador.
Ele compra jaqueiras a donos de sítios e fazendas e as
revende aos marceneiros da região de São Miguel
dos Milagres, um dos maiores produtores de móveis rústicos
dessa categoria na região Norte de Alagoas.
Bispo trabalha no ramo há 30 anos com outros tipos de madeira.
No início, a venda de jaqueira era tímida e acontecia
apenas para a construção de barcos; hoje, o carro-chefe
é a movelaria. A margem de lucro dele cresceu e chega a
50%.
"Eu compro jaqueiras centenárias com dois metros de
diâmetro por R$ 500 e as revendo por R$ 1 mil. O produto
está escasso, mas eu sei onde encontrar. Compro geralmente
a donos de sítios e fazendas que querem se desfazer das
árvores frutíferas para botar o pasto ou arrendar
terras às usinas da região que desejam plantar cana",
revelou o atravessador. "Os fazendeiros não querem
saber do fruto, que não vale nada (comercialmente)"
.
Só numa fazenda, em Porto Calvo, mais de 300 metros cúbicos
de árvores frutíferas, algumas de lei, foram devastados
no inicio deste mês. E, segundo a Justiça, a propriedade,
reivindicada pelo Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL)
passa por processo de inventário.
"Quando o proprietário sabe que a área vai
ser dos sem-terra, ele corta as jaqueiras e outras árvores,
e vende.
Tronco
de Jaqueira é utilizado até na indústria
naval
Originária
da Ásia, espécie está ameaçada de
extinção em Alagoas
Da jaqueira nada se perde, tudo se desfruta. Os gomos (ou favos)
são nutritivos, e, no período do verão, alimentam
tanto o homem como os animais, a exemplo de micos, macacos, quatis,
aves, gambás, lagartos, entre outros. As sementes cozidas
são comestíveis, ricas em amido. O tronco é
muito utilizado na construção naval. "A madeira
da jaqueira agüenta água", afirma o atravessador
Ismar Luiz Bispo.
Mas é a utilização para a movelaria que ameaça
esta espécie originária da Ásia, trazida
para o Brasil pelos portugueses; aqui a planta adaptou-se bem.
A jaqueira assemelha-se ao mogno (madeira de lei) e tem a característica
de não oxidar os metais. Suas formas irregulares dão
o tom de rusticidade às peças produzidas, que vão
desde mesas, passando por bancos, tábuas para cortar carne
ou ganham formas de araras e outros bichos (peças artesanais).
"A gente aproveita as formas dada pela natureza: corta o
tronco e dá o acabamento", revela o marceneiro José
Aldo dos Santos, 34 anos, que aprendeu o oficio com o saudoso
artesão Ulisses Ferreira, morto no ano passado, vítima
de acidente de moto.
"Eu trabalhava com outro tipo de madeira até descobrir
a qualidade da jaqueira", afirmou Santos. Ele possui uma
marcenaria em São Miguel dos Milagres. "É uma
madeira muito resistente e de rara beleza", observou, enquanto
um caminhão com toras de jaqueira era descarregado. Temendo
a falta de matéria-prima, o marceneiro estoca material.
LUGAR
DE DESTAQUE
Os móveis produzidos com a madeira da jaqueira ocupam lugar
de destaque em residências de quem pode pagar pelo mobiliário
e são, além de úteis e resistentes, decorativos
em restaurantes, pizzarias, hotéis e pousadas. Virou febre
no litoral Norte.
A procura por móveis rústicos de jaqueira cresce
a cada dia não só em Alagoas como também
no Sul e litoral de Pernambuco, a exemplo da cidade de Tamandaré
(PE), onde tem uma marcenaria que atua José Aldo. O marceneiro
de São Miguel dos Milagres tem clientes em Curitiba dispostos
a pagar pelo produto e pelo transporte até a capital do
Paraná.
A principal vantagem da jaqueira apontada pelos marceneiros é
do ponto de vista legal. "Não temos problemas com
o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis)" , enfatizou o marceneiro Severino
Valentin, de Matriz do Camaragibe, ao se referir à falta
de legislação que proíba a derrubada de árvores
frutíferas.
Para esconder os impactos ambientais e sociais causados pela devastação
das jaqueiras, todos os profissionais e atravessadores que atuam
no ramo, entrevistados pela Gazeta, alegam que só compram
exemplares que já não dão mais frutos. Uma
jaqueira pode produzir frutos por um período de até
cem anos. A produção de um exemplar adulto pode
alcançar, anualmente, cinqüenta a cem frutos por árvore.
COMPOSIÇÃO
Os gomos possuem carboidratos (18.9g); proteína (1,9g);
gordura (0,lg); fibra (1,1g); cálcio (2,0mg); fósforo
(30mg); ferro (0,5mg); vitamina A (540 UJ); vitamina (300 UJ).
Já a semente contém 6,6 % de proteínas e
25.8% de carboidratos. Num Pais que possui uma legião de
miseráveis, está ai um fruto nutritivo, barato e
acessível. Até quando?
Analista
alerta para fim da árvore frutífera
Para
o analista ambienta! do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renováveis (lbama), Nazir Salman,
a tendência da jaqueira é acabar. Ele propõe
que os governos incentivem o plantio destinado à indústria
moveleira e defende leis mais rigorosas para a preservação
de árvores frutíferas.
“Atualmente não existe lei que impeça a derrubada
de árvores frutíferas, a exemplo da jaqueira, que
é uma planta exótica de fora do Pais, à exceção
das plantadas nas margens dos rios, em regiões urbanas
e nas Áreas de Preservação Permanente (APP)”,
disse o analista ambiental do Ibama.
“Nada impede que um produtor rural devaste um sitio de jaqueira
para plantar outra cultura”, acrescentou Nazir, lembrando
que, no entanto, as árvores frutíferas desempenham
a mesma função ambiental das árvores nativas,
classificadas como madeira de lei, cujo corte é restringido.
“Uma árvore, seja ela frutífera ou não,
contribui para o bem-estar ambiental, oferecendo sombra e oxigênio”,
observou o analista ambiental. Para ele, os profissionais que
utilizam a jaqueira para a produção de móveis
podem ser incentivados pelos governos a destinar mais para o plantio
da matéria prima.
Vale lembrar que para atingir o ponto ideal de corte para a indústria
moveleira, a jaqueira tem que possuir de 10 a 20 anos, o que reforça
a necessidade de destinar, desde já, áreas para
o replantio.
PRAGMATlSMO
Mas, a pressão econômica exercida pela procura faz
com que a maioria dos marceneiros proceda de forma pragmática,
sem pensar no amanhã. Com a escassez da matéria-prima
em Alagoas, profissionais estão sacrificando, cada vez
mais, árvores juvenis e buscando exemplares até
fora do Estado.
Como os troncos possuem calibre menor, a madeira é cortada
e aglomerada para formar mesas, numa espécie de mosaico.
Essas peças são menos valorizadas.
Fonte:
Gazeta de Alagoas – 22/07/2007
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