....5 de março de 2008
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Devastação da Mata Atlântica não pára

Ambientalistas denunciam derrubada de árvores nativas em propriedades particulares de municípios do Norte de Alagoas

Severino Carvalho
Repórter

Catástrofes climáticas, aquecimento global, diminuição da biodiversidade. Todos os dias o noticiário mostra as agressões ao meio ambiente e as conseqüências e projeções nada animadoras para a vida na terra.

Todo esse quadro aterrador, no entretan, não sensibiliza empedernidos lenhadores, fazendeiros, comerciantes e atravessadores que lucram com o comércio da madeira extraída da Mata Atlântica no Norte de Alagoas.

Na companhia de um ambientalista da organização não-governamental (ONG) "Loucos pela Natureza" e "Os Mochileiros", a Gazeta flagrou a derrubada de árvores nativas em propriedades privadas nos limites dos municípios de Paripueira, Barra de Santo Antônio e de São Luís do Quitunde.

CINZA E CERÂMICA

O que a natureza levou anos, décadas, para criar, se transforma em estacas,.caíbros, linhas ou vira cinzas nos fomos de padarias e de cerâmicas da região Norte de Alagoas.

A madeira também abastece serrarias de Arapiraca, para onde o grosso da produção é levado. Tudo isso acontece sob o véu da impunidade e da falta de fiscalização.

Quem trafega pelas rodovias ALs-10l e 105 Norte, que cortam Paripueira, Barra de Santo Antônio e São Luís do Quitunde, não imagina que no interior desses municípios existam importantes remanescentes da Mata Atlântica.

Estradas de barro levam a rincões onde o verde claro da cana-de-açúcar é quebrado pelo verde escuro das copas das árvores nativas. Estacas fixadas à beira do tortuoso caminho chamam a atenção. A tosca sinalização serve para informar aos caminhoneiros que ali é um ponto de abastecimento de madeira.

A Polícia confirma a existência de desmatamentos em áreas particulares nos limites entre os municípios de São Luís do Quitunde, Paripueira e Barra de Santo Antônio, mas não revela as áreas onde o crime ambiental está ocorrendo para não atrapalhar as investigações de combate aos devastadores.

Policiais Militares e fiscais do Instituto do Meio Ambiente (IMA) até fiscalizam, mas nem sempre conseguem prender os infratores.

As árvores são derrubadas pelos lenhadores no coração das matas a machadadas e levadas no lombo de burros e cavalos. Os animais são conduzidos pelos cambiteiros, trabalhadores rurais arregimentados para guiar os animais com a mercadoria até o ponto de embarque, que, geralmente, fica próximo à beira das estradas de barro, onde os caminhões são abastecidos.

QUEIMA DA MADEIRA

O material estocado é camuflado com galhos secos e muitas vezes passa dias à espera do comprador. Já a madeira vendida para as serrarias é lavrada dentro das matas. Lenhadores instalam forquilhas e lapidam as toras, arrancando-lhes a casca.

Acusados de desmatamento são detidos

Três machadeiros foram detidos e dois fazendeiros de Barra de Santo Antônio autuados por devastar mata atlântica

Três machadores foram presos em flagrante e dois fazendeiros autuados por crime ambiental em Barra de Santo Antônio, litoral Norte de Alagoas. Eles são acusados de promover o desmatamento seletivo de áreas de mata atlântica em duas propriedades rurais. Foram apreendidas 70 toras de espécies nativas, machados, foices e sinalizadores. Um adolescente foi apreendido.

A operação foi realizada pelo Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) com o apoio da Policia Civil. .

Segundo o agente de fiscalização do Ibama, Roberto Correia, as propriedades onde foram constatados os desmatamentos pertencem ao ex-prefeito de São Luís do Quitunde, João Cordeiro, e ao empresário Carlos Oliveira, dono de uma gráfica em Maceió. Os dois não foram encontrados pela reportagem.

Os machadeiros Eduardo dos Santos, José Alfredo dos Santos e José Paulo da Silva foram presos em flagrante e levados para a Delegacia de Plantão (Deplan) 3, em Maceió, onde foram autuados. De acordo com o fiscal do Ibama, tanto os lenhadores como os donos dos imóveis responderão penal e administrativamente pelo crime contra a flora, que prevê de um a três anos de detenção.

Correia revelou que Oliveira e Cordeiro são reincidentes, já foram multados por desmatamentos em áreas de mata atlântica nas mesmas propriedades onde, na tarde de quinta-feira, fora constatado o novo crime ambiental. Segundo apurou a policia junto aos lenhadores, as toras seriam queimadas nos fornos da cerâmica de Cordeiro, localizada em São Luís do Quitunde.

DENÚNCIA

A Gazeta denunciou em duas reportagens publicadas no ano passado o avanço do desmatamento em áreas privadas de mata atlântica, na região Norte de Alagoas, nos municípios de Barra de Santo Antônio, Paripueira e São Luís do Quítunde.

Além de abastecer os fornos das cerâmicas da região, a madeira extraída também é transformada em carvão vegetal e vendida em pacotes em postos de combustíveis de Maceió.

Caminhões carregados com árvores nativas abastecem, ainda, ávidas serrarias em Arapiraca, no Agreste alagoano.

A madeira é retirada de dentro da mata no lombo de burros, por meio dos "cambiteiros", homens que são remunerados para remover o material por intermédio de picadas abertas em meio às árvores até o local do embarque em caminhões.

Segundo o Batalhão de Policiamento Ambiental, há ainda denúncias de que pessoas armadas e envolvidas em crimes na região Norte estejam atuando no desmatamento ilegal na região Norte de Alagoas.

O material apreendido foi levado para a sede do Ibama em Maceió, onde ficará retido. Os presos foram transferidos ontem para a delegacia de Barra de Santo Antônio.

Orientados por advogados, os acusados se negaram a prestar qualquer declaração à imprensa.

Fonte: Gazeta de Alagoas – 05/01/2008

Alagoas mantém 24 reservas particulares

Criadas com o objetivo de conservar a diversidade biológica, áreas também servem de atrativo turístico e educacional

Criadas com o objetivo de conservar a diversidade biológica, sendo permitidas a pesquisa cientifica e a visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais, as Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) têm gerado bons frutos em Alagoas.

Atualmente existem 24 reservas desse tipo no Estado e a expectativa é que esse número aumente ainda mais com o decreto Nº 3.050, de 9 fevereiro de 2006, que autoriza o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) a proceder o cadastramento das RPPNs. Antes, apenas o instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tinha autorização.

A RPPN é um dos doze tipos de Unidades de Conservação (UCs), que equivalem a áreas definidas pelo poder público com o objetivo primeiro da proteção da biodiversidade existente em seu interior.

UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Na Mata Atlântica existem hoje no Brasil cerca de 860 unidades de conservação, que vão de pequenos sítios transformados em RPPNs até áreas imensas como o Parque Estadual da Serra do Mar, com 315 mil hectares. Os dados são da Fundação S.O.S Mata Atlântica.

O Instituto do Meio Ambiente (IMA) já formalizou a criação de três RPPNs em Alagoas desde que o decreto foi publicado. As reservas ficam nos municípios de Maceió (Fazenda Aldeia Verde - l1,42ha), Mar Vermelho (Fazenda Canadá - 8,28ha) e Paripueira (Fazenda Placas ¬202,36ha). Até setembro, a expectativa é que sejam criadas ao menos mais seis reservas e até o fim do ano, outras 18.

VANTAGENS

O diretor de Unidades de Conservação do IMA, Alex Nazário, pontua as vantagens para o proprietário ao criar uma RPPN. "O direito da propriedade é preservado em cartório.O dono tem isenção do ITR (Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural) e prioridade na concessão de créditos agrícolas e nas análises de projetos ambientais", exemplificou.

Nazário revela que o IMA trabalha em parceria com ONGs a exemplo da Macambira e do Instituto para Preservação da Mata Atlântica (IPMA). Estas instituições fazem "o meio-de-campo" entre o órgão ambiental e os fazendeiros que desejam criar em suas propriedades uma RPPN.

"É preciso que o proprietário manifeste interesse para criar a reserva", frisou o diretor do IMA, lembrando que as ONGs buscam e convencem os fazendeiros a instituir uma RPPN. "As entidade captam a documentação necessária e nos envia a papelada, agilizando o processo", acrescenta.

Para o analista ambiental do Ibama, Walter Sobrinho, o grande lucro para o proprietário não está nas vantagens pecuniárias, mas, sim, na compensação ambienta!. "A vantagem é garantir que as reservas de Mata Atlântica que ainda existem sejam preservadas", pontuou Sobrinho. Ele lembra que muitos fazendeiros, a médio e longo prazos, acabam colhendo dividendos ao transformar as reservas em áreas de visitação turística. O Ibama em Alagoas já criou 21 RPPNs. Outros 20 processos estão sob apreciação.

BIOMA MAIS RICO

A Mata Atlântica é o bioma mais rico em biodiversidade do planeta. Ao todo são 1.300.000 km2, o que representa cerca de 15% do território nacional, englobando 17 Estados brasileiros. A floresta atinge ainda áreas do Paraguai e da Argentina. Somado à magnitude destes números, um outro dado preocupa: cerca de 93% de sua formação original já foi devastada.

Cassificada como um conjunto de fisionomias e formações florestais, a Mata Atlântica se distribui em faixas litorâneas, florestas de baixada, matas interioranas e campos de altitude.

São nessas regiões que vivem também 62% da população brasileira, cerca de 110 milhões de pessoas. Um contingente populacional enorme, que depende da conservação dos remanescentes de Mata Atlântica para a garantia do abastecimento de água, a regulação do clima, a fertilidade do solo, entre outros serviços ambientais.

A maior ameaça ao já precário equilíbrio da biodiversidade é justamente a ação humana e a pressão da sua ocupação e impactos de suas atividades.

PROTEGE A AGUA

A Mata Atlântica protege os processos hidrológicos responsáveis pela quantidade e qualidade da água potável para cerca de 3,4 mil municípios, e para os mais diversos setores da economia nacional, como a agricultura, a pesca, a indústria, o turismo e a geração de energia. (Fonte: Fundação SOS Mata Atlântica).

Fonte: Gazeta de Alagoas– 12/08/2007