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Vida longa ao mercado de carbono
Adalberto Wodianer Marcondes*
O
aquecimento global é o tema ambiental que mais mobiliza
as atenções no momento. Mas isto é suficiente
para mudar os hábitos da sociedade?
Existem
alguns temas que caem no gosto da sociedade e passam a ocupar
muito espaço nos cenários de comunicação.
O aquecimento global é um deles. Aliás, é
o tema ambiental que mais mobiliza as atenções no
momento. E isto é muito bom. O termo ?aquecimento global?
retorna 798.000 hits no Google, enquanto ?efeito estufa? tem 593.000
hits de presença na internet. Protocolo de Kioto, com ?i?,
tem 645.000 hits e Protocolo de Kioto, com ?y? tem outros 852.000.
Isto apenas em sites em português. Se a mesma busca for
realizada em inglês certamente os números serão
astronômicos.
No
Brasil a febre atingiu os principais meios de comunicação,
a ponto de o tema ser tratado em uma série de reportagens
no principal informativo semanal da TV Globo, o Fantástico.
E isto para falar somente dos líderes de audiência,
porque, em verdade, os temas Efeito Estufa, Protocolo de Kyoto,
Crédito de Carbono e outros correlatos tornaram-se corriqueiros
nas conversas do dia a dia. Surgem especialistas e consultores
de todas as partes, sites, reportagens, propostas de inventário
de emissões de carbono, cálculos para a neutralização
das emissões e outros modelos de pequenos e grandes negócios.
É
bom que a sociedade tenha a percepção de que as
emissões de dióxido de carbono na atmosfera estão
causando o aquecimento global, que isto, como explica o ex-vice-presidente
dos Estados Unidos, Al Gore, vai levar a grandes catástrofes
mundiais, seja no mundo desenvolvido ou nos países mais
pobres. Em seu filme ?uma verdade inconveniente?, Gore aponta
números bastante convincentes para provar que o aquecimento
global é uma realidade, alerta para a necessidade de adoção
de política públicas globais de redução
de emissões de carbono na atmosfera e mostra algumas alternativas
para o desenvolvimento econômico mais limpo.
Mas
este saber social sobre o efeito estufa pode realmente mudar hábitos?
Mais, pode fazer com que os acionistas e consumidores tenham uma
visão de longo prazo e busquem no presente alternativas
sustentáveis? Esta é uma questão que ainda
está no ar. Algumas empresas estão embarcando na
realização de seus inventários de emissões
de carbono completamente às cegas, sem compreender exatamente
o que poderão fazer com os resultados. Outras, no entanto,
não se preocupam muito com a precisão da medição
de suas emissões, desde que possam usar isso para a construção
de uma imagem politicamente correta diante de um público
cada vez mais sensível às cenas de furacões
e grandes blocos de gelo se destacando das calotas polares da
Terra.
Este
cenário de mistério, onde a ciência assume
ares de alquimia, oferece muitas oportunidades para manipulação
de dados e informações, fazendo oscilar as certezas
ao bel prazer dos objetivos de quem está com a palavra.
É justamente este o jogo de cena que está sendo
feito pelo governo dos Estados Unidos, que aproveita os dados
que lhe interessam e descarta o que lhe pode ser inconveniente
em suas justificativas para não assumir compromissos de
redução de emissões no bojo do Protocolo
de Kyoto, que foi ratificado em março de 1999 por 23 países,
dentre eles o Brasil, e busca alternativas que reduzam a quantidade
de gases poluentes, em relação aos níveis
de 1990, em pelo menos 5,2% até 2012. Isto significa que
os países signatários terão que colocar em
prática planos para reduzir sua emissão já
a partir de 2008.
A
moda agora é fazer algo mais reluzente e menos efetivo,
a neutralização das emissões de carbono através
do plantio de árvores e outras ações que
se enquadrem na alínea de ?seqüestro de carbono?.
O marketing resultante destas ações movimenta muitos
recursos em comunicação, com resultados pouco significativos
em termos de redução real das emissões de
carbono na atmosfera. Para se obter resultados relevantes são
necessários compromissos mais estruturados e o ingresso
consciente em um mercado que se convencionou chamar de ?crédito
de carbono?. Este é até o momento o único
caminho capaz de criar um equilíbrio global das emissões
de carbono através da transferência de direitos de
emissão e de neutralização de fato de emissões
via seqüestro de carbono em quantidades industriais.
O
Brasil tem no mercado de carbono um cenário de oportunidades
e desafios. É tido como um dos países de maior potencial
na emissão de certificados de seqüestro de carbono
passíveis de negociação no mercado internacional.
No entanto ainda não tem organizações realmente
estruturadas para obter o máximo desta oportunidade global.
Por outro lado, não tem, até 2012, nenhum compromisso
formal de redução de suas próprias emissões
de dióxido de carbono. Assim como também não
têm nossos paradigmas comerciais, a China e a Índia.
Portanto, as empresas que atuam em terras brasileiras não
deveriam, em tese, ter preocupações em relação
às suas emissões. Esta é uma tese, no entanto,
que não merece receber muitas fichas em uma aposta real.
As
emissões de carbono brasileiras estão divididas
entre queima de combustíveis seja para atividades industriais,
de transportes ou de geração de energia, e uma grande
parcela, a maior, da queima de matéria orgânica resultado
de desmatamentos florestais, principalmente na Amazônia.
Novamente em tese seria fácil ao Brasil reduzir suas emissões
de carbono simplesmente parando de devastar as florestas. Este
seria o melhor dos mundos. No entanto, não será
bem assim. Os países signatários do Protocolo de
Kyoto não estão dispostos a deixar que o Brasil
ganho créditos simplesmente deixando de fazer algo que
ele não deveria estar fazendo. Ou seja, parar de desmatar
é uma obrigação brasileira e nada tem a ver
com a s metas de redução de emissão. Isto
terá de ser feito com um aperto sério nas empresas.
Este
é o ponto de maior controvérsia para os negociadores
brasileiros nas conferências de clima das Nações
Unidas. O quanto vale parar de desmatar? É melhor as empresas
partirem do princípio de que não vale nada, e que
os medidores virão para suas chaminés. Portanto,
devem se preparar desde já para um cenário de grande
probabilidade em 2012, o de terem de efetuar de fato reduções
em suas emissões ou ir atrás de certificados de
carbono para compensar seus excessos. Dos três países
em desenvolvimento mais na mira doas atuais subscritores do Protocolo
de Kyoto, o Brasil é o que mais tem a ganhar com a redução
de emissões, uma vez que está mais bem estruturado
em termos de biocombustíveis e tem melhor capacidade de
entrar como grande player no mercado de crédito de carbono.
Índia
e China baseiam seu crescimento econômico na queima de combustíveis
fósseis, seja carvão ou petróleo. Nenhum
dos dois países tem a capacidade de alterar drasticamente
sua matriz energética de forma a manter os níveis
de crescimento econômico deste início do século
XXI em um cenário de obrigatoriedade de reduções
de suas emissões. A compreensão desta limitação
das duas economias que mais crescem atualmente pode oferecer ao
Brasil e às empresas que atuam aqui importantes vantagens
competitivas.
Uma
das primeiras coisas a se ter em mente é que será
vantajoso para o Brasil assumir metas de redução
das emissões de carbono a partir de 2012 e, assim, pressionar
China e Índia a também projetarem suas reduções.
Neste cenário o Brasil tem mais capacidade de ação
a partir de um mercado estruturado de emissão de certificados
de crédito de carbono e da utilização de
tecnologias limpas. Como vantagem adicional está a decisão
da Comissão Européia em reduzir em 20% suas emissões
de carbono em relação aos valores de 1990. Um número
que pode ser ampliado para 30% caso os Estados Unidos mudem sua
posição de ignorar a existência das mudanças
climáticas.
As
empresas brasileiras que estão realizando os seus inventários
de emissões de carbono de forma séria, referendada
por organizações e profissionais capacitados, estarão
um passo à frente na avaliação de suas ações
no novo e possível cenário de restrições
das emissões. Saber com antecipação qual
é sua posição e poder planejar com calma
as ações de compensação pode ser a
diferença entre continuar a crescer ou ter de botar o pé
no freio da produção. Além disto, a redução
das emissões na Europa poderá representar excelentes
oportunidades de negócios para o Brasil, na medida em que
algumas das grandes empresas européias estão presentes
aqui e poderão transferir suas linhas de produtos que ficarem
inviáveis na Europa para o Brasil. Isto se o país
estiver preparado para compensar o aumento em suas emissões
de CO2.
Ganharão
as empresas que conseguirem estabelecer uma fronteira clara entre
a reputação de suas ações de caráter
socioambiental e, em especial, de competência e qualidade
em seus inventários de emissões de carbono, e as
múltiplas facetas do marketing ambiental que está
se estabelecendo através de ações meramente
de comunicação. O valor da reputação
é o que efetivamente tem o reconhecimento de acionistas
e consumidores, sejam eles pessoas físicas ou as grandes
trades responsáveis pelo comércio global, que estarão
cada vez mais pressionadas impor critérios ambientais a
seus fornecedores.
Por
isso é importante que a moda pegue. E mesmo as empresas
que estão apostando apenas no marketing acabam por contribuir
para mostrar o valor da sustentabilidade e da consistência
das ações das empresas comprometidas com resultados
em um mercado que acabou de nascer, mas que certamente terá
vida longa. (Envolverde)
(*)
Adalberto Wodianer Marcondes é diretor responsável
da Envolverde.
www.envolverde.com.br
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