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O Brasil precisa agir e rápido
Com a certificação de produtos,
quem não quiser agravar a destruição da Amazônia
e o aumento do efeito estufa, teria a chance de comprar apenas
produtos certificados.
André
Trigueiro *
O mais alarmante relatório já divulgado pela ONU
sobre os impactos do aquecimento global não deixa dúvidas
sobre a urgência das ações que governos, empresas
e sociedade deverão empreender daqui por diante no sentido
de reduzir a intensidade das catástrofes previstas.
No
caso específico do Brasil, onde 75% das emissões
de gases estufa se concentram nas queimadas da Amazônia,
está mais do que na hora de o governo promover a certificação
da madeira, da carne bovina e da soja procedentes daquela região
do país, inibindo a comercialização do que
seja produzido em áreas de floresta ocupadas ilegalmente
por madeireiros, pecuaristas e sojeiros.
A
certificação é um passo importante para que
o consumidor tenha a oportunidade de escolher o que lhe interessa,
segundo seus valores e conveniências. Em resumo: quem não
quiser agravar a destruição da Amazônia e
o aumento do efeito estufa, teria a chance de comprar apenas produtos
certificados.
Outra
medida oportuna seria fazer com que as montadoras de veículos
reduzissem progressivamente as emissões de gases estufa
dos motores. Pelas atuais regras do PROCONVE ? Programa de Controle
de Emissões Veiculares ? as montadoras são obrigadas
a cumprir metas e prazos para reduzir as emissões de alguns
gases poluentes, mas o texto da Resolução CONAMA
nº 315, de 2002, não estabelece nenhum compromisso
dos fabricantes em reduzir as emissões dos gases que agravam
o aquecimento global, em particular de CO2 (dióxido de
carbono), apontado pelos cientistas como o principal gás
estufa.
A
esperada elevação do nível do mar também
deveria inspirar cuidados especiais num país com mais de
8 mil quilômetros de costa. A maioria absoluta dos brasileiros
? e dos prefeitos das cidades litorâneas ? desconhece os
resultados de um estudo encomendado pelo Ministério do
Meio Ambiente, segundo o qual 40% das praias brasileiras são
mais vulneráveis ao avanço do mar.
Foram
identificados pelo menos 22 pontos de maior vulnerabilidade em
nossa costa , dos quais se destacam as regiões densamente
povoadas próximas de estuários, como Rio de Janeiro
e Recife. O estudo recomenda ainda que toda nova construção
em áreas urbanas deveria guardar uma distância mínima
de 50 metros do ponto onde termina a areia da praia. Nas regiões
ainda desocupadas, a distância mínima deveria ser
de 200 metros. É preciso dar visibilidade aos resultados
dessa pesquisa, e reprogramar as estratégias de ocupação
da orla.
Na
área da educação, é urgente a atualização
dos conteúdos pedagógicos nas escolas e universidades,
no sentido de informar com clareza e objetividade sobre a maior
de todas as crises ambientais, e o que é possível
fazer para reverter esse processo no longo prazo. Professores
e alunos devem ser instigados a participar ativamente da construção
de um novo mundo sem emissões de gases estufa. O que está
em jogo, nos termos colocados pelos cientistas da ONU, é
a nossa sobrevivência.
Assim
como acaba de fazer a Prefeitura de São Paulo, que instituiu
como obrigatória a compensação das emissões
de gases estufa em qualquer tipo de evento a ser realizado nos
32 parques públicos da cidade (os organizadores de shows,
concertos, exposições e eventos do gênero
terão de medir antes as emissões de gases estufa
e se comprometer por escrito a compensar essas emissões
com o plantio de árvores), o governo federal poderia repetir
essa iniciativa, sinalizando um cuidado que todos devem ter daqui
para a frente.
Na
área das compras públicas, que movimenta aproximadamente
10% do PIB brasileiro, o governo federal incluiria como exigência,
nos editais de licitação para a aquisição
de produtos e serviços, a informação relativa
às emissões geradas por cada fornecedor. Poderia
não ser o quesito mais importante do edital, mas a simples
exigência criaria um ambiente bastante favorável
à eficiência energética e redução
do desperdício.
O
fato de o Brasil não estar na lista dos países desenvolvidos
que historicamente mais contribuíram para o aquecimento
global não nos livra do compromisso ético de reduzir
as emissões de gases estufa. Nesse sentido, é preciso
agir. E rápido.
*André
Trigueiro é jornalista da Globo News e da CBN, pós-graduado
em Gestão Ambiental na COPPE/UFRJ, criador e professor
do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ e autor do livro "Mundo
Sustentável", da Editora Globo.
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