| Eletricidade
nuclear: na contra mão da sustentabilidade
Não há energia sem
controvérsia, mas a nuclear, pelo poder destruidor que
tem qualquer vazamento, merece e deve ser discutida mais amplamente
pela sociedade.
Por Heitor Scalambrini Costa*
Desenvolvimento sustentável é aquele que é
capaz de suprir as necessidades da geração atual
sem comprometer a capacidade de atender às necessidades
das gerações futuras. É o desenvolvimento
que não esgota os recursos para o futuro. Partindo desse
conceito podemos afirmar que é um absurdo e equivocado
que o governo brasileiro priorize a opção nuclear
para geração de energia elétrica, considerando
que o país conta com tantas opções de produção
a partir de energias renováveis e limpas.
Além dos riscos devido a acidentes, ao lixo atômico,
as emissões de CO2, somam-se o risco geopolítico
que traria ao país e a região esta tecnologia. A
exploração abusiva e perdulária da energia
originada de fontes não-renováveis (combustíveis
fósseis, como o petróleo, carvão e o gás
natural, e a energia produzida nas usinas nucleares), ainda maioria
no planeta, traz danos irreversíveis ao meio ambiente.
Com base nesse fato, a questão das fontes de energia é
assunto em pauta mundialmente.
No
Brasil, cria polêmica a discussão sobre as usinas
nucleares como complemento à produção de
energia a partir das hidrelétricas. Atualmente, a energia
nuclear corresponde a 2 % da produção energética
brasileira, gerada pelas usinas Angra 1 (657 megawatts) e Angra
2 (1.350 megawatts). A principal matriz do Brasil é a hidroeletricidade
(80%).
A
intenção do governo com a reativação
do Programa Nuclear é de aumentar a capacidade nuclear
com a instalação de Angra 3 até 2012, e com
a construção de quatro novas usinas até 2030,
sendo duas na região Nordeste e outras duas no Sudeste,
conforme propõe o Plano Nacional de Energia 2030 - Estratégia
para a Expansão da Oferta, apresentado pela Empresa de
Pesquisa Energética-EPE.
Apesar
dos renovados esforços da indústria nuclear em apresentar-se
como segura, acidentes em instalações nucleares
em diversos países continuam a demonstrar que esta tecnologia
é perigosa, oferecendo constantes riscos que podem trazer
conseqüências catastróficas ao meio ambiente
e à humanidade, por centenas e milhares de anos. O exemplo
mais recente foi o acidente pós-terremoto na maior usina
atômica do mundo, localizada em Kashiwazaki-Kariwa, no Japão.
Sem
falar em outro problema que continua sem solução
no Brasil e no mundo, que é o armazenamento do lixo radioativo
gerado pelas usinas. Afirmar que as centrais nucleares não
contribuem para os gases de efeito estufa é uma meia verdade,
e como toda meia verdade, também é uma meia mentira.
As usinas núcleo elétricas em operação
rotineira, necessitam de grandes volumes de água usados
na refrigeração de suas turbinas, produzindo grandes
quantidades de vapor d\'água para a atmosfera.
Lembramos
que o vapor d´água é também um tipo
de \"gás estufa\". No conjunto de etapas do processo
industrial que transforma o mineral urânio, desde quando
ele é encontrado em estado natural até sua utilização
como combustível dentro de uma usina nuclear, chamado ciclo
do combustível nuclear, é produzido quantidades
consideráveis de gases de efeito estufa.
Outro
fator de extrema preocupação, descrito no Relatório
da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
da Câmara dos Deputados publicado em 2006, é que
o Estado brasileiro está longe de ter a estrutura necessária
para garantir a segurança das atividades e instalações
nucleares. Nesse documento são apontadas graves falhas
na fiscalização e monitoramento do setor nuclear,
destacando, entre outros problemas, a duplicidade de funções
da Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN atua, ao
mesmo tempo, como Requerente, Operadora, Prestadora de Serviços,
Licenciadora e Fiscalizadora de si própria.
Vale
lembrar que, em setembro desse ano, completaram-se 20 anos da
contaminação com Césio 137 em Goiânia,
que vitimou milhares de pessoas e ficou conhecido como o maior
acidente radiológico do mundo. No Brasil, historicamente,
a relação entre o uso da energia nuclear para fins
energéticos e para fins militares também é
muito estreita. O Programa Nuclear Brasileiro surgiu durante a
ditadura militar e até hoje atende demandas de alguns setores
das forças armadas, fascinados pelo poder que a energia
nuclear lhes traz.
Outros
grupos de interesse fazem “lobby”, como setores industriais
“preocupados” com o risco de um apagão (a instalação
de usinas nucleares não vai afastar o risco do apagão
nos próximos três ou quatro anos), grupos de cientistas
pelo prestígio e oportunidades de novas pesquisas e pelo
comando do processo, os fornecedores de equipamentos e as empreiteiras,
por motivos óbvios. A discussão sobre energia nuclear
precisa levar em consideração o modelo econômico
adotado no país, o qual se baseia no aumento do consumo
e da oferta de energia. Isto não é aceitável.
O
atual modelo energético brasileiro “ofertista”
é insustentável. Precisamos nos perguntar, para
quê e para quem essa energia é produzida. Não
existe uma fonte de energia que só tenha vantagens. Não
há energia sem controvérsia, mas a nuclear, pelo
poder destruidor que tem qualquer vazamento, merece e deve ser
discutida mais amplamente pela sociedade, do que a feita apenas
com dez pessoas do Conselho Nacional de Política Energética
- CNPE.
Para
um desenvolvimento sustentável, voltado para o bem de todos,
da pessoa humana e da natureza, em um país como o Brasil
com tantas opções de produção de energias
renováveis, a energia nuclear não passará.
*Heitor
Scalambrini Costa é professor associado da Universidade
Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), Mestrado em Ciências
e Tecnologias Nucleares, na Universidade Federal de Pernambuco
e Doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Comissariado
de Energia Atômica-França.
Fonte:
EcoAgência
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