| É
hora de continuar nas ruas
A
Conferência do Clima (COP 15) nem havia acabado e o veredito
estava no ar: a palavra fracasso resumia o sentimento que tomou
o mundo frente à inação dos líderes
em tratar do aquecimento global. Uma fotografia estampada no site
do Greenpeace, de extração de petróleo de
piscinas de xisto betuminoso no Canadá, era o retrato da
decepção. A atividade está entre os maiores
emissores individuais de CO2 do mundo. A imagem – uma panorâmica
do complexo petrolífero expelindo fumaça no ar no
meio de um cenário esbranquiçado pela neve –
era plasticamente bonita, mas não deixava qualquer margem
de dúvida sobre a mensagem. A reunião em Copenhague,
com 120 chefes de Estado presentes, tinha dado com os burros n’água.
O
Greenpeace chegou à COP 15 com três pedidos básicos.
O primeiro tratava da redução de emissões
de gases-estufa. Dos países ricos, pedia um corte de 40%
até 2020. Das nações em desenvolvimento,
redução entre 15% e 30% do crescimento de suas emissões
futuras. O segundo era a constituição de um fundo,
com contribuições das nações desenvolvidas,
de US$ 140 bilhões anuais para financiar ações
de adaptação e mitigação em regiões
pobres do planeta. O último pedido era que tudo, uma vez
acordado, saísse das negociações na Dinamarca
com força de lei. Nada disso nem de longe tornou-se realidade.
Mas
muito mais do que se imagina aconteceu. Alguns países,
casos do Brasil, India, Africa do Sul e China, pela primeira vez
foram para uma discussão de clima assumindo metas públicas
de redução de suas emissões de CO2. Ainda
que timídas, elas representaram uma reviravolta. Não
tão grande, entretanto, quanto a que mexeu com a atitude
do público em relação à crise do clima.
O tema é relevante – envolve uma das maiores ameaças
que a humanidade encarou em toda a sua história –
mas até bem pouco dava sono em quem o escutava. Esse comportamento
mudou à medida que a reunião de Copenhague se aproximava.
“Hoje
todo mundo no Brasil se preocupa com o aquecimento global”,
disse o presidente Lula no começo de novembro em São
Paulo. Lá fora também. Copenhague foi a primeira
COP acompanhada em escala global. Pelo tamanho da cobertura na
imprensa, parecia uma eleição de Papa. Os políticos
tropeçaram, mas seus eleitores deixaram claro ao longo
de 2009 que o assunto lhes interessa e que esperam que seus líderes
façam algo sobre ele. Essa percepção felizmente
está consolidada. Tome-se novamente o caso brasileiro como
exemplo. Aqui, de patinho feio, a questão ambiental e as
mudanças climáticas viraram parte da campanha eleitoral
que se desenha em 2010.
O
desmatamento zero na Amazônia passou a fazer parte do debate
político. José Serra, Dilma Roussef e Marina Silva,
três dos principais candidatos à Presidência,
estiveram na capital da Dinamarca. Nos últimos meses, alguns
afinaram seus discursos para incluir neles o meio ambiente. O
processo que levou a Copenhague, portanto, criou uma situação
de oportunidade que não deve ser perdida. Ao invés
de se lamuriar sobre o seu resultado, melhor prestar atenção
no que ela deixa como herança – além do interesse
do público, uma espécie de ressurgimento do ativismo
ambiental, que entrou nessa década dado como morto e sai
dela revitalizado.
No
final do ano passado, O Greenpeace tomou a decisão de que
o aquecimento global era um tema importante demais para ficar
restrito aos gabinetes da diplomacia mundial e decidiu levá-lo
para as ruas, para reiterar o seu sentido de urgência. No
Brasil, praticamente não houve mês em que o Greenpeace
não estivesse envolvido em ações públicas.
No resto do planeta também. A organização
mobilizou seus 38 escritórios ao redor do mundo para mobilizar
a atenção das pessoas sobre as mudanças climáticas.
Não há dúvida de que o trabalho produziu
efeito, ou mais de uma centena de chefes de Estado não
teriam aparecido para a Conferência do Clima em Copenhague.
Tampouco
o Brasil hoje teria metas de redução e a promessa
do governo de investir US$ 166 bilhões em 10 anos em projetos
de mitigação e adaptação ao aquecimento
global. Tudo isso é bom, mas não basta. A Amazônia
continua sendo desmatada e, no Congresso, sob o olhar complacente
do governo, a bancada da motosserra promete agir com vigor redobrado
para conseguir seu grande objetivo: destruir o Código Florestal
e quebrar o corpo de nossas leis ambientais.
Diante
desse contexto, o Greenpeace continuará em 2010 a levar
os temas do meio ambiente e do aquecimento global para além
das paredes dos ministérios e dos corredores do Congresso.
E sua ajuda é fundamental. Tudo o que conseguimos fazer
em 2009 deve-se, em grande parte, à massa de pessoas –
voluntários, ciberativistas e colaboradores – que
apóiam nossas iniciativas. Mais do que nunca, esse apoio
será fundamental para conseguirmos nos manter nas ruas
do país em 2010 e garantir que o ambientalismo influencie
os destinos do mundo ao longo da próxima década.
Fonte:
Greenpeace Brasil
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