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A R T I G O S
 

 

 

 

 

 

 


Caracol Africano, de problema a solução

Por Mauricio Aquino, com a colaboração de A. Ignacio Agudo-Padrón

Um brasileiro tem mais chances de ser atingido por um raio, ganhar na loteria, sofrer um acidente de avião ou ser atacado por um tubarão, do que contrair Meningite Eosinofílica no Brasil graças ao Africano. O uso deste molusco como alternativa alimentar para comunidades de baixa renda, contribuirá para minimizar a subnutrição, para manter a sua população sob controle no ambiente e ainda para a conservação da natureza, pois desviará a atenção dos animais silvestres (pacas, tatus, cutias, gambás, cuícas, saguis, macacos, veados, catetos, capivaras...) que hoje constituem um importante complemento alimentar utilizado em muitas comunidades rurais.

É importante expor uma surpreendente constatação: o Caracol Africano, Achatina (Lissachatina) fulica (Bowdich, 1822), desde a sua introdução no Brasil há 24 anos até novembro de 2011, não foi responsável pela transmissão de uma única enfermidade no Brasil.

A possibilidade do Africano transmitir uma doença é tão remota que, como pesquisador e contribuinte, não consigo entender o porquê os meus impostos estão sendo desperdiçados em tantas campanhas contra um vetor que até hoje, não causou uma única enfermidade numa população de 200 milhões de habitantes e que poderia, sob uma ótica diferente, contribuir para minimizar a desnutrição no país, salvando centenas de vidas humanas.

As principais enfermidades atribuídas ao Africano, a Angiostrongilíase Abdominal e a Meningite Eosinofílica (ME), causadas pelos vermes Angiostrongylus costaricensis e Angiostrongylus cantonensis, respectivamente, nunca foram relacionadas diretamente ao Africano no Brasil, apesar dos intensos esforços das autoridades sanitárias.

Foram notificados no país até hoje (Nov-2011), quatro casos de Meningite Eosionofílica, a pior doença atribuída ao Africano. Os dois primeiros casos foram registrados em 2007 no Espírito Santo e o terceiro e o quarto caso, nos municípios de Escada e Olinda, em 2008, Pernambuco.

Todos eles foram provocados pela ingestão crua de moluscos nativos; nos dois primeiros, o responsável foi uma lesma, Sarasinula marginata (Semper, 1885) (Caldeira; Mendonça & Goveia 2007; Thiengo et al 2010) e os dois últimos, provavelmente, um caramujo límnico, Pomacea lineata Spix, 1827. O fato é que, nenhum dos quatro casos de ME descritos até hoje na literatura científica brasileira foram provocados pelo Africano!

Infelizmente, é importante se frisar que na transmissão dessas doenças parasíticas temos até hoje, apenas moluscos nativos envolvidos. Em nenhum dos trabalhos houve relatos de óbitos.

Segundo Chrosciechowski, (1977) é surpreendente a falta de especificidade do A. cantonensis em relação aos seus hospedeiros intermediários e paratênicos, citando uma longa lista de moluscos gastrópodes terrestres e de água doce (caramujos, caracóis e lesmas) capazes de se infectar por via natural ou experimental, hospedando larvas infectantes deste perigoso parasito de roedores.

Resumindo, além do Achatina fulica, existe uma grande quantidade de moluscos brasileiros que também podem hospedar o A. cantonensis e A. costaricensis, causadores da Meningite Eosinofílica e Angiostrongilíase Abdominal, respectivamente, e a lista de espécies suscetíveis irá ampliar-se à medida que forem realizados novos experimentos e pesquisas.

Para Junior et al. (2010, p.940), a distribuição silvestre do A. cantonensis no Brasil é o resultado de múltiplas introduções do parasita por ratos desde o período colonial brasileiro, devido ao intenso comércio praticado na época com o continente Africano.

Portanto, a ocorrência deste parasito no país não é decorrente da presença do Achatina. O A. cantonensis já estava aqui muito antes da introdução do primeiro Africano há apenas duas décadas. A ME foi diagnosticada recentemente não pela presença do Africano, mas pelo esforço concentrado dos pesquisadores em associa-la a ele.

Em resumo, você tem mais chances de ser atingido por um raio, de ganhar na loteria, de sofrer um acidente de avião ou ser atacado por um tubarão, do que contrair esta doença pelo Africano que, se cozido por 20 minutos em panela de pressão, antes do consumo, pode ser ingerido com segurança do ponto de vista parasitológico.

De acordo com Martins (2009, p.1), um bilhão de pessoas sofria de desnutrição em 2009 e embora o Brasil seja o quarto maior produtor mundial de alimentos, produzindo 25.7% a mais do que necessita para alimentar sua população, ele ocupa o 6° lugar em subnutrição.
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que anualmente desperdiçamos o suficiente para alimentar 35 milhões dos cerca de 72 milhões de brasileiros, segundo o IBGE, em situação de insegurança alimentar (ECODEBATES, 2009). De acordo com a FUNDAMIG (2009, p.1) o desperdício diário equivale a 39 mil toneladas de alimentos, o suficiente para saciar a fome de 19 milhões de brasileiros, com as três refeições básicas: café da manhã, almoço e jantar.

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, os três estados com maior número de pessoas em extrema pobreza estão no Nordeste. A Bahia é o estado brasileiro com a maior concentração de pessoas em situação de extrema pobreza (2,4 milhões), o segundo é o Maranhão (1,7 milhão) e o terceiro é o Ceará (1,5 millhão). O Pará, na região Norte, é o quarto (1,43 milhão). O quinto é Pernambuco (1,37 milhão) e, em sexto, está São Paulo (1,08 milhão). O estado de Alagoas, onde moro, aparece em 10º lugar e, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, temos 633.650 pessoas em extrema pobreza, o que representa 20.3% da população total do estado (CALHEIROS, 2011). Ao todo, de acordo com o Ministério da Saúde, existe no Brasil 16,27 milhões de pessoas nessa condição”. (WSCOM, 2011).

Para o governo prover segurança alimentar a sua população é importante discutir-se as diversas causas: cidadania; distribuição igualitária de alimentos e combate ao desperdício; superação da pobreza; escolaridade e saneamento básico; inserção social; geração de renda; quantidade e qualidade da alimentação. Em minha opinião, uma educação de qualidade deve ser prioritária entre todas as outras, pois dar o peixe ajuda a matar a fome, mas não ensina ninguém a pescar, contribuindo apenas, para a perpetuação do assistencialismo em favorecimento da miséria, o que só beneficia em curto prazo, a classe política dominante que, tradicionalmente, manipula esses eleitores na base do toma-lá-dá-cá.

Mas até que possamos colher os frutos da conscientização social em prol da segurança alimentar, o africano que a imprensa vem alardeando como uma praga nociva, na realidade, engendra algumas das qualidades essenciais para minimizar a desnutrição do país: abundância e alto valor nutricional.

Atualmente, o Brasil lidera um acelerado processo de extinção de caracóis nativos endêmicos no continente sul-americano, muitos deles ameaçados de extinção devido as campanhas públicas terroristas mal conduzidas desde 2003 "Pro Erradicação do Africano” no meio ambiente do Brasil. Entre todas as espécies nativas de caracóis terrestres, especialmente os representantes específicos das Famílias BULIMULIDAE, STROPHOCHEILIDAE e MEGALOBULIMIDAE, muitas delas raras e endêmicas, no geral, muito pouco conhecidas cientificamente até hoje, são as mais ameaçadas. E o pior é que o Brasil, atualmente um modelo de desenvolvimento, vem influenciando seus "vizinhos territoriais" a seguir a mesma trilha desastrosa.

A divulgação de inverdades que definem o Africano como espécie não comestível, como hospedeiro intermediário responsável pela transmissão de um significativo número de casos de Meningite Eosinofílica ou até identificá-lo como transmissor da Esquistossomose, uma gravíssima doença transmitida por outros moluscos nativos, tem que parar, caso queiramos contribuir para a formação, política e ecologicamente correta, de pesquisadores responsáveis e cidadãos conscientes, capazes de lidar com a realidade.

E enquanto brincamos de "verdade ou mentira", os Africanos já poderiam ajudar a salvar vidas no Brasil, pois em outras partes do planeta eles são disputados como iguaria há muitos anos. Fagbuaro (2006, p.688) assegura que o Africano é uma boa fonte de proteínas (18 ~ 21%) onde na Nigéria, um único caracol pequeno, com 25 gramas, fornece 45% da necessidade diária de PTN de uma criança. Hoje em dia, o caracol é uma parte significativa e essencial da dieta de várias tribos no litoral nigeriano. Além das proteínas, o caracol é rico em minerais como zinco, magnésio, cálcio, fósforo, potássio, sódio e ferro.

Mas para isso, o preconceito generalizado – a malacofobia – contra o caracol africano
deve ser combatido através da extensão rural, e com a aceitação dessa realidade estaremos
transformando um aparente problema, numa deliciosa solução.

Eu como o Africano regularmente... e você? Participe de nossa “Aliança pela Vida”, e venha colaborar pela conservação dos nossos moluscos nativos e pelo aproveitamento racional do Africano.

Devemos converter o “aparente problema” do Caracol Africano no Brasil em “oportunidade” para todos e não em “oportunismo” para alguns!

Para ler mais sobre o caracol africano clique nos links abaixo.

http://www.portaldomeioambiente.org.br/pma/book/60-edicao-42-novembro-de-2011/10-edicoes-de-2011.html

http://projetocaramujoafricano.blogspot.com/2011/12/entrevista-sobre-o-africano-verdades-e.html

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