Ruídos
na comunicação ambiental
Por Vilmar Sidnei Demamam Berna*
Os ruídos na comunicação
ambiental podem atrapalhar o entendimento sobre consumo, recursos
naturais, superpopulação, amadurecimento pessoal
ou sobre a neutralidade na informação.
Quando se faz a crítica ao consumismo,
por exemplo, não é ao ato de consumir, em si.
Não há nada de errado em consumir. É
o que fazemos, do berço ao túmulo. O que se
critica é o consumo irresponsável; o desperdício,
que destrói recursos que poderiam estar sendo melhor
distribuídos; a redução da vida humana
às dimensões de produzir numa ponta para consumir
na outra, como se ganhar dinheiro e gastá-lo é
que fosse o importante, e viver, amar, ser feliz nem tanto,
claro, a não ser que tenha o consumo como intermediador.
Quando se alerta sobre o fato dos recursos
naturais serem limitados não significa que não
haja recursos no Planeta suficiente para todos. Há,
até de sobra. O que se critica é a pegada ecológica
desigual, onde uns poucos pegam muito mais que a maioria,
só possível por que existe desigualdade social
e falta de cidadania consciente e participativa na luta por
políticas públicas.
Quando se alerta para nossa superpopulação
de 7 bilhões de humanos, não quer dizer que
o Planeta não possa suportar esse número ou
ainda mais gente. O que se critica é o fato da população
estar se multiplicando numa velocidade muito maior que a capacidade
dos governos e dos mercados em prover a todos de infra-estrutura
e condições dignas de sobrevivência, produzindo
perversa e mesmo deliberadamente uma exclusão social
que permite a concentração de renda e poder
de uma minoria.
Também é equivocado imaginar
que o mundo melhor que se deseja depende primeiro da evolução
pessoal e espiritual dos indivíduos. As pessoas não
amadurecem ao mesmo tempo, por isso a mudança para
a sustentabilidade requer cidadania crítica e participativa,
mecanismos legais e estruturas democráticas que assegurem
iguais direitos e oportunidades para todos, em vez de imaginar,
como o profeta, que gentileza gera gentileza. Se gerasse,
não haveriam tantos estelionatários e pessoas
que se aproveitam da boa vontade dos outras para obter vantagens.
Finalmente, não devemos nos iludir
com a idéia de neutralidade em comunicação.
Informar é o ato de escolher que parte da verdade queremos
Iluminar e que parte deixaremos nas sombras. Logo, o observador
interfere diretamente na observação ao comunicar
sobre ela. Assim como existem comunicadores a serviço
da sustentabilidade, existem comunicadores a serviço
de poluidores e organizações que trabalham para
garantir privilégios e controle político, social
e ambiental, para aumentar seus lucros, doa a quem doer. Refugiam-se
na idéia de que apenas realizam o seu trabalho profissional
e cumprem ordens. O mesmo argumento do piloto que lançou
a bomba nuclear sobre o Japão pulverizando instantaneamente
mais de 250 mil pessoas e causando danos a milhões
de outras.
A gente tende a imaginar que todos, em princípio,
são bons, até que nos provem o contrário.
Mas bondade e maldade existem em todos nós e são
questões de escolhas. Nem só de boas intenções
são feitos os caminhos da sustentabilidade. Existem
pessoas e organizações que tiram vantagem da
atual situação e não querem ver seus
ganhos e privilégios diminuídos. Então,
podem se aproveitar dos ruídos na comunicação
ambiental para manterem a opinião pública na
dúvida e desmobilizada. À medida que os ruídos
são identificados e eliminados, a opinião pública
deixará de ser um alvo tão fácil nas
mãos dos aproveitadores.
*
Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista,
fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação
Ambiental (www.rebia.org.br ) e edita deste janeiro de 1996
a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio
Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente ( www.portaldomeioambiente.org.br
). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global
500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio
Verde das Américas - www.escritorvilmarberna.com.br